Sexta-feira, 29 de Maio de 2009

Notas de viagem (X) - a bordo do voo TP262, sobre o norte de África, no regresso

Falta-me o deserto. Nunca estive num deserto. Já estive em sítios ermos, naturalmente, mas nunca num deserto a sério. Também nunca tinha sobrevoado África durante o dia, tanto quanto me posso lembrar, e agora que o estou a fazer, perscrutando o Sahara, apercebo-me quão impressionante é um sítio destes, de uma tal extensão que a vista não abrange mesmo a dez quilómetros do chão.

Um deserto é uma maravilha natural tão extraordinária quanto a selva amazónica, a grande barreira de coral na Austrália e os Himalaias. Um deserto é espectacular à sua maneira.

Sempre me fascinou isto de ver o mundo de cima, sempre me desafiou e divertiu tentar identificar posições através das características geográficas. Quem me dera que os pilotos me convidassem para viajar no cockpit e me ajudassem a identificar as cidades e os desertos...

 

Não há nenhuma evidência de vida. Nenhuma. Voamos há horas sobre o deserto e não há nada que possa fazer supor que alguma forma de vida exista lá em baixo. Portanto o que me puxa para baixo é saber que isso é uma ilusão.

Faltam sensivelmente duas horas e quarenta minutos para aterrar em Lisboa, o que nos coloca sobre a Argélia. "Um ponto preto quebra-me a solidão do olhar." Olhando com mais atenção, vários pontos, em trilhos rochosos. Serão sombras? Miragens?

Voamos há horas sobre um deserto que só sabermos ter limites porque confiamos na cartografia que toda a vida nos impingiram. De outra forma, poderíamos perfeitamente pensar que tínhamos chegado ao infinito. Isto é o infinito.

 

(Imagem tirada daqui)

Buraco tapado por Citadina às 11:01
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5 comentários:
De Cosmopolita a 29 de Maio de 2009 às 13:59
Estás enganada! A acreditar em Saint-Exupéry, um apaixonado do deserto, deve haver lá em baixo um pequeno príncipe...
De Citadina a 29 de Maio de 2009 às 14:31
Sim, haverá muitas coisas lá em baixo (não vejo em que me enganei) inclusive príncipes , grandes e pequenos.
No entanto, era a ti que procuraria, lá estando...
De Cosmopolita a 29 de Maio de 2009 às 16:56
E eu juntar-me-ia a ti como o Principezinho se juntou à sua flor...
De DD a 6 de Junho de 2009 às 21:22
Há anos fui com o Otelo Saraiva de Carvalho e mais uns amigos do PCP e uns partidos de esquerda, entre eles o PS, representando pela minha pessoa, a Tindouf, no sul do Sahara. Fomos a convite da Frente Polisário que lutava com o Marrocos.
Ficámos acampados em pleno deserto numa grande tenda militar com uns separadores de tecido para cada um poder ressonar à sua vontade.
Depois fomos dar uma volta de Land Roover. Fomos aos campos de batalha mais recentes em que os marroquinos tinham sido derrotados, ou teriam sido.
Duna para cima, duna para baixo, eu só via areia, algum cascalho e lá longe muitos pontos negros.
Fiquei confuso com tanto ponto negro e com a completa ausência de camelos. Como não queria passar por camelo não perguntei nada.
Levámos imenso tempo até chegarmos aos primeiros pontos negros. Eis o que me espantou: pneus velhos, baterias, latas e bidons de óleos ou gasolinas e até carcaças de carros, etc. e já na zona das batalhas, restos de tanques, jeeps, capacetes de aço, armas destruídas, etc.
Enfim, o deserto estava repleto das vitualhas da cicivilização técnica e belicista.
O ser humano consegue estragar tudo á sua volta.
De Citadina a 2 de Julho de 2009 às 11:22
Obrigada pela partilha e tem de razão, infelizmente: o ser humano é a maior ameaça para o nosso planeta...

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