Sexta-feira, 22 de Outubro de 2010

Antologia de um crime justo

Já não devia, mas não consigo evitar. Põe-me sempre doida ouvir esse reaccionarismo neoliberal de que "só não trabalha quem não quer, que há muito trabalho por aí e o desemprego é culpa das pessoas que não o querem fazer". Quem o profere é normalmente alguém que esconde  cobardemente os seus limites, no sentido em que também não faria tudo o que fosse preciso, atrás da fanfarronice e das mangas arregaçadas. Limites esses que se manifestam ainda ao nível do egoísmo e cegueira próprios de quem na verdade se está a cagar para os outros e, já agora, para o país e o mundo em geral, desde que a sua própria pessoa esteja bem, limites que não lhes permitem nem desconfiar que eu, que os ouço dizer estas coisas na minha cara, quando estive desempregada, por altura da anterior crise, hoje conhecida como a bolha das telecoms, também podia ter trabalhado se quisesse. Podia ter passado de directora geral de uma pequena empresa, responsável por trinta postos de trabalho, a operadora de call center ou a promotora de comida de gato num hipermercado. E sabem que mais? Fi-lo. Aguentei a humilhação de ser explorada em praça pública e aceitei fazer parte da classe escrava dos tempos modernos. Só para ver como era. Só para ver se o meu desespero podia mesmo ser resolvido assim, tão facilmente, à laia de comissões miserávais sobre pacotes de duzentos gramas de ração de qualidade duvidosa. Para ver se era verdade que não existe, na opinião de algumas pessoas, razão para sentir humilhação, "porque o trabalho dignifica", sendo que são precisamente essas mesmas pessoas, esses fanfarrões abjectos que nos olham demoradamente no supermercado e sublinham com toda a expressividade que conseguem incutir ao seu desprezo vitorioso "mas (pausa) agora estás aqui (pausa, olhando em volta) a fazer isto? (sorriso condescendente)", ou seja, os que não perdem oportunidade de tentar humilhar o próximo. Deve ser também por isto que as crises levam ao aumento da criminalidade. É que apetece muito mais dar um tiro em alguém e não é em troca de nada, nem para tomar posse de bem material nenhum. É para purgar a sociedade de certas mentalidades. É serviço público.

Buraco tapado por Citadina às 17:41
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2 comentários:
De Avidni a 4 de Novembro de 2010 às 12:06
Mais uma vez: excelente texto e assertiva reflexão...
(bem, use balas de borracha se puder )
De Citadina a 4 de Novembro de 2010 às 15:53
Não vou matar ninguém, Avidni.
Se não matei na altura...
Obrigada pelo seu cometário.

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