Sábado, 14 de Abril de 2007

Why do I keep doing this to myself (2)

Esparta, séc.V a.C.. Leónidas, o rei, fantasia sobre a sua infância violenta enquanto cofia a barba egípcia.
 
Rufia por natureza, decide convocar a guerra com o rei dos Persas, Xerxes, um andrógino sanguinário com muito mau feitio, que apesar do seu assinalável jeito para se vestir de mulher, padece de gigantismo.
 
Esta decisão não é bem aceite, nem pelo Conselho da cidade-estado, que como um qualquer parlamento, acha que tudo o que não tenha seu iluminado aval está mal feito, nem tão pouco por um bando de leprosos que residem isolados no topo de um rochedo, a quem toda a gente se esqueceu de informar que já estão mortos há algum tempo, que para passar o tempo fazem porcarias à vez com uma adolescente drogada e, last but not the least , se autoproclamam "o oráculo".
 

Mas Leónidas, o machão, entediado com a sua vida sexual e saudosista de uma boa refrega, lá reúne, à revelia, 300 rambos arcaicos, que além do elmo, da lança, da espada e do escudo, envergam uma elegante capa rubra e umas cuecas Calvin Klein.

 

Depois de gritarem muito alto "AÚ! AÚ! AÚ!" numa coreografia patética, lá se põem a caminho, não antes de a rainha, simbolicamente oferecer um corno a Leónidas.
 
A partir daí o estimado espectador será brindado com uma profusa (e interminável) sequência de freak-shows compondo um imenso espectáculo sado-maso onde não faltam montanhas de mortos cobertos de moscas, mamutes suicidas e répteis com falta de equilíbrio, chuvas de setas sincronizadas digitalmente, um exército de mascarados que são conhecidos como "os Imortais", nitidamente recrutados no carnaval de Veneza e que tentam respirar como o Darth Vader, decapitações em movimentos copiados do Matrix, muita caracterização comprada de certeza nos saldos de fim de época dos adereços do Senhor dos Anéis, e obviamente, como não podia faltar, um Judas na pele de um corcunda desfigurado, que em troca de um chapéu papal, mas preto e com estrelinhas, trai os 300 de Esparta, expondo a falha da sua estratégia, que os 300 000 000 persas não tinham chegado para descortinar antes.
 
Cai finalmente o primeiro espartano, com muita elegância, diga-se de passagem, num movimento perfeito de queda sobre os joelhos para depois se deixar deslizar para o lado direito em câmara lenta, estendendo-se finalmente no chão com uma delicadeza impressionante, pelo menos para alguém que já tem a cabeça separada dos corpo há uns minutos.
 
Entretanto a rainha, metendo-se onde não é chamada, acaba por ter que dar uma de borla ao intriguista ambicioso lá do burgo que promete apoiá-la no seu discurso perante o Conselho, onde esta acaba por lhe cortar os tomates quando ele se começa a vangloriar em público de a ter comido, alegadamente para desmentir a sua fama de impotente.
 
Um vigia vem avisar Leónidas que estão cercados, ao que este manda toda a malta embora para ficar só ele e mais uns aficionados do S-M debaixo da mira de Xerxes , que obviamente fecha os olhos à debandada, e fica por explicar como é que aquela maltosa toda ultrapassa o cerco incólume.
 
Leónidas encomenda ainda a um espartano cegueta o relato desta bela história no Conselho e a devolução do corno à rainha.
 
Depois, prepara-se para morrer com todo o dramatismo, não sem antes desfigurar Xerxes num impressionante lançamento do dardo que ficaria na história como precursor de uma das mais enigmáticas modalidades dos Jogos Olímpicos de Atenas, constando ainda hoje como o recorde do mundo, uma vez que estamos a falar de um lançamento de 500 metros.
 
Em resposta, mais uma chuva de setas, desta feita muito mais eficaz, que mata os espartanos todos, inclusive Leónidas que ainda tenta dizer "AÚ! AÚ! AÚ!" mas não consegue por ter uma seta cravada na laringe, portanto opta por delirar com a sua querida.
 
Um plano superior revela-nos uma composição de corpos mortos, num estilo trágico-barroco muito ensanguentado, com Jesus Cristo, perdão, Leónidas ao centro na posição de crucifixo, mas na horizontal e com setas. 
 
A rainha recebe o pingente em forma de corno e passa esse precioso testemunho ao filho.
FIM.
 
300: uma fantástica épico-chachada com pretensões pictóricas e sem a noção do ridículo. Não perca, num cinema perto de si.
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Buraco tapado por Citadina às 18:27
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3 comentários:
De Duca a 16 de Abril de 2007 às 09:34
Ó minha querida, mas está tal e qual. Já li e reli este texto umas três vezes e de cada vez que o faço farto-me de rir, pois há sempre mais qualquer coisa de hilariante que descubro. E depois, quando faço a tranposição para o filme, a coisa vira mesmo ataque de riso.
Excelente, melhor que muitas críticas que leio. rsrsrsrsrs.
De Cosmopolita a 16 de Abril de 2007 às 09:40
Amor, graças a este teu post, comecei a 2ª feira com uma boa gargalhada!

Vais descobrir, pelos comentários que seguramente aqui vão pôr, que a única e plausível razão para continuares a ver trampas destas, tu que gostas tanto de bom cinema, é porque é absolutamente imprescindível que nos faças "ver" estes filmes através de uma crítica mordaz e irónica, destrutiva e satírica, tão ao teu jeito, de forma a que não percamos nem tempo nem dinheiro nestas porcarias!

Aliás, quero aqui propor a toda a gente, pese embora o sacrifício que isso representará para ti, que te tornes a nossa crítica oficial de cinema, mesmo que tenhamos de te pagar os bilhetes!

Adoro a forma como escreves!!!!

Beijos!

De duca a 16 de Abril de 2007 às 17:12
Apoiado! Citadina a critica oficial de cinema!

Querida Cosmopolita, já falta pouco para nos vires matar as saudades. É que não é só a tua menina que morre delas por ti!

Beijos minha querida.

P.S. Nas últimas três vezes que fui ao cinema só vi porcarias e duas delas com a Citadina. Como dizem que não há duas sem três, espero que à quarta seja de vez e consiga apreciar bom cinema!

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