Quinta-feira, 28 de Junho de 2007

Excertos da memória - 2 (continuação)

- Convinha passarmos numa farmácia.

- Porquê, de que é que precisas?

- As miúdas estão cheias de piolhos...

- ...

Foda-se, se isso se sabe lá em casa!

- Pois...

 

Esta foi a conversa entre o meu pai e o amigo, no tal Mercedes que iluminava a noite em que chegámos a Bemposta. Disto já não me lembrava, e foi o meu pai, o único dos dois que ainda é vivo, que agora mo recordou. Para um(a) miúdo(a) naquela época, ter piolhos ou não ter não era nada de extraordinário, à excepção do incómodo da coçadeira. Isto porque a vida das crianças era na rua enquanto os pais estavam a trabalhar e a rua era uma instituição, um mundo misturado, uma experiência, uma escola, um passeio de ricos com pobres das barracas e com as classes do meio, onde, no entanto, as posses relevantes de cada um eram practicamente as mesmas; calçado e roupa, melhor ou pior, uma bola aqui, uma bicicleta ali, mas acima de tudo, os dois brinquedos mais fantásticos que conheci: tempo e imaginação.

 

Em Bemposta acordámos na manhã seguinte, numa cama grande, os três, eu, a minha irmã e o meu pai, num quarto do andar de cima. Os sinais de luta para escapar ao banho mata-piolhos na madrugada anterior ainda eram evidentes. Estava tudo num pandemónio, as roupas de viagem espalhadas por toda a divisão, ainda húmidas, secando nas costas das cadeiras.

 

Não havia água canalizada nem luz eléctrica. A higiene pessoal fazia-se sobre bacias. Havia sim, pedras nas paredes, escuras e amontoadas camadas graníticas, aglomeradas, creio, pela mesma mistura de palha e esterco que cobria, lá fora, o chão. Cheiravam a merda. Tudo cheirava a merda. Eu cheirava a Quitoso, que vai dar ao mesmo.

 

Depois das apresentações à matriarca, que nos fez torradas numa lareira onde eu cabia em pé e nos ofereceu o leite mais nojentamente gordo que tive de ingerir em dias de vida, calçámos as galochas para sair. Sim. Galochas. Quem se lembra delas em apenas duas variantes ponha o dedo no ar. As minhas eram azuis escuras com uma grossa sola amarelo-torrado e as da minha irmã eram vermelhas com sola branca.

 

Assim que saí à rua, olhando para todos os lados menos para onde devia, senti uma coisa estrebuchar debaixo do pé. Pisei um sapo, que em parte se desfez numa viscosidade verde-clara. Era o que faltava para vomitar o leite ali mesmo, por cima das botas do meu pai, que começava a abeirar-se de um ataque de nervos.


(continua)


Buraco tapado por Citadina às 18:30
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4 comentários:
De Duca a 29 de Junho de 2007 às 10:22
"... os dois brinquedos mais fantásticos que conheci: tempo e imaginação."

Algo que as crianças actualmente não têm, infelizmente.

Apesar da nossa diferença de idades, tivemos uma infância semelhante. Sorte a nossa!

Escusado será dizer que continuo a adorar o relato.

Beijo e até logo :)
De viz a 29 de Junho de 2007 às 18:49
moça, tu com as palavras pintas...
bem boa viagem e falamos ao vosso regresso
bjkas
De Angelo a 30 de Junho de 2007 às 16:47
Estou... Nem sei que dizer!

BELO! E fico a espera do resto! Parece que estava ali contigo!
De Citadina a 4 de Julho de 2007 às 16:34
Duca, still so very kind, my dear! :-)

Viz, querida, que coisa bonita para se me dizer, babo-me, quisera eu que fosse verdade o que afirmas! :-)

Angelo, bem-vindo a este canto do mundo, e como vai o Japão? Muito Lost in Translation? Apareça sempre e obrigada pela visita.

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