Quarta-feira, 25 de Julho de 2007

Questões de princípio

Vieram-me à cabeça as questões de princípio, que me ocorrem aliás com uma certa frequência, a propósito do post da Citadina "Vontade de insultar escroques", que deu origem a outro post da Duca, que eu comentei.

Uma das razões por que muitos portugueses se queixam muito, mas nada fazem para mudar as causas dessas queixas deve-se ao facto de 40 anos de fascismo e laxismo terem anulado neles a capacidade de lutar, quanto mais não seja por uma questão de princípio, pelos seus direitos. Não votam, não participam em actividades políticas a não ser por questões oportunistas, não se revoltam de uma maneira geral. Ou seja, falam, falam, falam, mas não dizem nada e fazem menos ainda.

Estou emigrada, porque me recuso a viver sem trabalhar, ou a sobreviver com uns míseros tostões, ou a depender da segurança social. Mesmo que isso me custe ter de viver longe das pessoas que amo. É a minha maneira de dizer não a um país que proletariza os seus quadros técnicos, enquanto apregoa que os trabalhadores portugueses precisam de formação! Há em Portugal milhares de quadros licenciados e doutorados que não têm emprego. Ou que recebem salários de miséria. Ou que trabalham como amanuenses.

O direito e a obrigação de trabalhar eram direitos e deveres fundamentais dos países socialistas. Porque o trabalho dignifica o homem e lhe é fundamental para a sua sanidade mental, para ser feliz. Hoje um emprego raramente se consegue por competência e/ou habilitações. Como em tudo o resto, e não só na Madeira, reina o compadrio.

O direito ao aborto foi já consagrado em lei. Que na prática não será cumprida. Ou que será, como tudo, apenas para quem possa pagar.

Lutar pelo direito à habitação é uma questão de princípio. Que não é respeitado. O direito à saúde e à educação também. Não sei se se lembram da canção do Sérgio Godinho “A paz, o pão, a habitação, saúde, educação…”?

Nenhum destes direitos é respeitado e são poucas as pessoas já que lutam por direitos tão fundamentais como estes. Como disse acima, quanto mais não seja, por questões de princípio. Pelo exercício dos seus direitos.

Fui educada por uns avós e uns pais notáveis nesse aspecto. Muitas vezes no desnorte da vida me oriento pelos exemplos que recebi deles e que tentei, de alguma maneira, transmitir aos meus filhos. Julgo que com alguns resultados.

Há muitos anos, estava a dizer a um colega, que a educação que me tinha sido transmitida e que eu tentava transmitir aos meus filhos, pequenitos na altura, os iria fazer falhar na vida. Os bons princípios não dão hoje de comer a ninguém!

Não denunciar. Ser leal. Ser honrada. Não recuar perante as adversidades. Enfrentar os meus medos. Ser persistente. Ser trabalhadora. Ser competente. Ser vertical. Cultivar o espírito. Aprender até morrer. Cumprir com as minhas obrigações de cidadã. Ser interveniente politicamente. Assumir responsabilidades. Ser verdadeiramente amiga. Não cultivar intrigas. Não ser vingativa. Não bajular. Ser frontal. Não subir na carreira à custa de atitudes indignas. Reflectir sobre o mundo.

E por mais que a vida me demonstre que eu devia ser o contrário de tudo isto, não consigo. Os princípios que me foram inculcados estão demasiado arreigados no fundo de mim mesma. E, por muito que pareça às vezes uma perda de tempo ou estupidez para quem me rodeia, uma questão de princípio mexe sempre comigo. Tenho de lutar pelos meus direitos. Por uma questão de princípio. É inevitável. Foi-me ensinado a não viver de joelhos!

Buraco tapado por Cosmopolita às 15:21
Link do post | Tapa também
9 comentários:
De Duca a 26 de Julho de 2007 às 12:52
Excelente post minha querida. Aprendo sempre tanto contigo! Fiquei sem palavras e não resisti a fazer uma menção lá no Tempus aeste post.

"Viver de joelhos" é como quase todos os portugueses vivem, sem dúvida!

Beijo
De Sweet porcupine a 26 de Julho de 2007 às 15:22
BRAVO!!!!!!!!!!!

Conta comigo não só nessa formação pessoal, como nessa luta diaria para que os nossos direitos!Sejam eles quais sejam.
Recuso-me a algum dia baixar os braços seja ao que seja.... sei que sozinha não mudo o mundo, mas sao pessoas como tu que me fosrtificam as ideias os meus ideais e me fazem sentir orgulho desta minha (nossa) geração!

Parabéns pelo post!
Beijinhos ouriçados
De Cosmopolita a 26 de Julho de 2007 às 16:46
Cara Sweet Porcupine:

Fiquei muito sensibilizada com o teu comentário. Por muito que as pessoas achem que não, não estão tão sozinhas quanto julgam.

E acredita que isto não é geracional. Em todas as gerações há e houve pessoas assim, senão a Humanidade não tinha evoluído.

Há, pois, que, como dizes, não baixar os braços e ir à luta! E se pudermos, com o nosso exemplo, deixar nem que seja apenas uma pequena semente desta forma de estar e pensar, já teremos feito algo para que as coisas mudem na nossa e em todas as outras gerações.

Um abraço para ti
De Cosmopolita a 26 de Julho de 2007 às 17:57
Querida Duca:

É muita bondade tua, minha querida amiga!!!

Fico contente por teres gostado e sensibilizada por lhe teres feito referência no teu blog...

Um grande abraço e até breve
De Cristina a 26 de Julho de 2007 às 15:22
Permita-me discordar... os "nuestros hermanos" tiveram tanto ou mais anos de fascismo e no entanto não ficaram conformistas como os portugueses.
Tem de haver outro(s) motivo(s).
Outra questão da qual não concordo é quando diz "Não denunciar". Não sei bem qual foi o sentido desta frase, mas no meu entender levei-o para o conformismo (mais uma vez esta palavra). Dou-lhe um exemplo muito prático: livros de reclamações! Existem, e deveriam ser usados mais frequentemente. Felizmente, hoje em dia, existe legislação penalizadora no que diz respeito às reclamações de serviços ao público. E se as coisas não mudam muito é porque as pessoas não os usam mais vezes! Neste sentido, sim, denunciar faz todo o sentido.
De Cosmopolita a 26 de Julho de 2007 às 17:42
Cara Cristina:

Relativamente ao seu comentário, não há dúvida de que estes dois pontos que foca necessitam de ser esclarecidos.

Há, de facto, mais do que uma razão para os espanhóis serem diferentes dos portugueses. Para já, mesmo os filhos do mesmo pai e mãe são diferentes, quanto mais dois povos! Depois, não se esqueça de que os espanhóis sofreram uma guerra civil que os dividiu e dilacerou e nós não. Isso apurou, forjou e temperou a vontade deles. Mas há muitos mais factores. Sociais, económicos, culturais.

Em relação à segunda questão que coloca, ela é extremamente interessante e pertinente. Quando estudei Ética, das perguntas mais interessantes que se me colocaram, foi a de qual é o limite, a fronteira entre uma coisa tida como "boa" e a mesma coisa vista como "má"? Duas faces de uma mesma moeda... Qual é a diferença entre um assassino e um herói de guerra? Qual é a Diferença entre Bush e Saddam Hussein? O que acha?

Qual é a diferença entre assassinar uma criança e fazer um aborto? Há diferenças enormes, consoante as condições. Reparou que para se aprovar a lei sobre a interrupção voluntária da gravidez fosse em que país fosse, houve, desde sempre, reuniões das Comissões de Ética? Sou a favor da IVG, não julgue que não, mas cito-lhe este caso a título de exemplo.

E finalmente, qual é a diferença entre “denunciar" algo ou alguém e “reclamar”? Há uma diferença enorme! Também consoante as condições.

Por exemplo, os meus filhos (e eu, quando era pequena) não podiam acusar ninguém de uma asneira. Podiam apenas dizer "Não fui eu!".

Não se denunciam os resistentes à polícia política, não se denunciam colegas às chefias, etc. Mas podem e devem denunciar-se terroristas? Pode e deve-se denunciar casos de abuso de poder, de mau funcionamento de instituições? Será isso denunciar? Ou será, como diz, não se conformar?

Sei que a fronteira, às vezes parece ténue, mas o bom senso, o sentido de justiça e de ética, ajudam a encontar as respostas adequadas.

É sem dúvida um tema interessante para desenvolver um destes dias.

Espero tê-la esclarecido e muito obrigada pelo seu comentário.
De Cristina a 27 de Julho de 2007 às 11:30
Bom dia.
Antes de mais obrigada pelo esclarecimento.
No entanto, mais uma vez venho discordar do primeiro ponto - e não, não é perseguição . Se Espanha tenho uma guerra civil, Portugal teve uma guerra colonial! E também não concordo quando diz que a guerra "apurou, forjou e temperou a vontade" - ou melhor, que a Guerra, em geral, apura, forja e tempera a vontade dos Homens. Pelo contrário, acho que toda e qualquer guerra, reprime, impõe e escraviza a vontade do Homem. Normalmente numa guerra aqueles que se opõem ao Estado maior são eliminados, virando mártires do povo reprimido, ou pior, perdem-se na corrupção e viram casacas conforme lhes é mais conveniente. Mas isto são outros assuntos.

Em tudo o resto, creio que estamos em sintonia.

Mais uma vez, obrigada.
De Açucena a 26 de Julho de 2007 às 20:45
Não quis passar por aqui sem deixar o meu humilde comentário a tão profundo post... é verdade, vivemos num país onde não há educação, formação, não se investe nessa parte, completamente esquecida, onde os pais preferem pagar playstations a perderem o mesmo dinheiro ( e ganharem muito mais em qualidade) e apoiarem os filhos, ensinarem-lhes o que é a vida, as questões politicas, a usufruirem e a lutarem pela manutenção dos direitos adquiridos, a ensinarem-lhes a pensar, no fundo!
Quantos aos nossos politicos...sem comentários!
E quanto à questão da IVG e do outor, o mesmo, sem comentários!


Foi um prazer conhecer o teu blog!
De candida a 4 de Setembro de 2007 às 16:58
eu revejo-me em quase tudo menos na merda da política. é k eu penso k tudo o k fazemos é um acto político.

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