Quarta-feira, 12 de Setembro de 2007

Relações virtuais - um sinal dos tempos

As pessoas têm cada vez menos tempo e paciência para se relacionarem no plano real, com todas as condicionantes que ele acarreta. Os pais não têm tempo para os filhos; alguns, que podem, tentam comprar o amor destes com bens materiais em vez de os educar e contrariar, se necessário, a fim de os preparar para a vida. Os casais não têm tempo um para o outro e inventam romances com colegas de trabalho ou com pessoas de circunstância com quem a vida lhes permite passar muito mais tempo do que com o parceiro. Os avós desapareceram ou estão a trabalhar até morrer, não tendo por isso tempo para os filhos e netos. As famílias já se encontram só muito raramente e muitas vezes por obrigação. Os amigos são cada vez mais os conhecidos que os amigos de verdade, de longa data.
A notícia abaixo, que li através do Sapo no dia 18-07-2007, é um exemplo bem ilustrativo disso.

Estudo: 2,3 milhões de portugueses fizeram amigos virtuais.

Mais de 2,3 milhões de cibernautas nacionais visitaram comunidades virtuais a partir de casa, durante o primeiro semestre deste ano, de acordo com os dados do estudo Netpanel da Marktest.

Entre Janeiro e Junho de 2007, foram 2.344 mil os residentes no Continente com quatro ou mais anos que acederam a sites de relacionamentos quando navegaram na rede global a partir do seu domicílio, um valor que corresponde a 77,6% dos utilizadores desse período.

Foram visitadas mais de mil milhões de páginas de redes sociais, uma média de 465 páginas por utilizador. Os portugueses dedicaram a estes sites mais de 7,5 milhões de horas, uma média de três horas e 14 minutos por utilizador.

As mulheres lideram entre as 11:00 e as 23:00 horas e, a partir dessa hora e durante a madrugada, os homens apresentam uma taxa de acesso superior.

O Hi5 liderou destacadamente no primeiro semestre, tanto em número de utilizadores únicos, como em páginas visitadas ou tempo dedicado. O MSN Spaces foi o segundo na lista dos mais visitados, seguido pelo MySpace e pelo Netlog.”

Hoje, em vez de se verem ou telefonarem, as pessoas deixam-se recados nos blogs ou telemóveis, a propósito e despropósito, escrevem-se mails, namoram ou fazem sexo pelo Skype ou outros provedores / plataformas. As relações virtuais tornaram-se uma realidade! Faz-me lembrar um filme que deu que falar na minha juventude, o Barbarella com a Jane Fonda. Algures no futuro, as pessoas já não faziam sexo nem sequer para se reproduzirem.

Ao carinho de uma entoação, à ternura de um gesto, a um abraçar apaixonado do ser amado, ao brilho de alegria de uns olhos, às lágrimas de saudade ou emoção, a tudo o que é presencial e físico, real portanto, sobrepuseram-se chips. Que não conseguem, por mais que se queira, substituir-se ao que se apreende com os cinco sentidos. Conheço paixões que se atearam pela net, namoros, casamentos, amizades, sexo. Quem não se lembra no “Closer” da cena em que Dan, personagem que Jude Law interpreta se faz passar por Anna (Julia Roberts) e tem uma relação de sexo com Larry (Clive Owen), um médico de turno, que acredita que do outro lado está de facto uma mulher? Sem sentir nada, sem pretender sequer sentir?

Na net tudo é possível. Uma relação virtual não implica que as pessoa (personagens?) sintam de facto seja o que for. Também não implica o tal investimento de tempo de que se fala no Petit Prince, o que conduz à responsabilização pelo outro, a tornar o outro único - one of a kind - do nosso mundo.
Uma relação virtual não implica a confrontação com o que o outro tem de bom e de mau, de fraco e de forte, de problemas e de alegrias, não impõe presença física - por vezes invasiva - do outro na nossa vida.
E por isso tudo é muito mais fácil. É possível ser-se um magnata, uma princesa, uma bruxa, seja o que for. É possível vivermos as personalidades que gostaríamos de ser e de ter. E relacionarmo-nos com pessoas com quem fantasiamos. Porque cada um só dá e só toma o que quer do outro. Sem compromissos, sem ter de ser assim, sem corresponder a nada de real.

O real é que é uma chatice! Com as pessoas a serem mesmo como são. Chatas, invasivas, indiferentes, impacientes, ocupadas, com inseguranças e problemas de todo o tipo, egoístas. Gordas ou magras. Novas ou velhas. Cansadas ou não. Desempregadas ou com empregos de sucesso. Com contas para pagar. Com um histórico que se torna num fardo. Com cobranças mútuas. A exigirem tempo e disponibilidade. A exigirem emoções. A exigirem responsabilizações. Com famílias! Onde é que na net há famílias a chatear o cônjuge?

Hoje levam-se as crianças a quintas pedagógicas para saberem qual o aspecto que tem uma galinha, de onde vêem os ovos, como se obtém o leite, como crescem as batatas, etc. No futuro, por este andar, levar-se-ão as pessoas a quintas de afectos para saberem o que é um carinho, uma festa, um beijo, um sorriso?

Buraco tapado por Cosmopolita às 10:27
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4 comentários:
De Duca a 12 de Setembro de 2007 às 11:19
Excelente post e não posso deixar de concordar contigo.
Deve ser por isso que tento trazer os nicks que me agradam no mundo virtual para o mundo real com os verdadeiros nomes. Para mim, nada substitui um abraço, um sorriso, uma lágrima, uma voz, uma expressão, uma gargalhada, um berro, enfim, um ser humano.
Sou uma antiquada, está visto. Já morri e ainda não sei. ;)

Beijo
De Maria João a 15 de Setembro de 2007 às 22:21
concordo plenamente.
Sou uma cibernauta inexperiente; quis iniciar-me nas novas tecnologias , apenas para não me sentir cidadã do século passado.
Mas nada pode sustituir o afecto que se põe num abraço, Num beijo, num aperto de mão, num sorriso...
De celtic a 20 de Setembro de 2007 às 18:19
infelizmente é a mais pura das verdades, as relações são muito mais faceis e descomprometidas na internet, porque quando nos chateamos basta-nos desligar o pc. O problema é que muitas vezes deixamo-nos arrastar por estas mesmas relações porque afinal de contas "não há mal nenhum" e acabamos por negligenciar aquilo que é a realidade, que não é perfeita nem glamourosa, por um punhado de ilusão.
Agora, também acredito que mais cedo ou mais tarde as pessoas se vão apercebendo do irreal e de quanto tudo isto é um castelo de areia.
Face a isso restam duas opções, ou as pessoas tomam consciência daquilo que realmente lhes falta e voltam à realidade e aos afectos verdadeiros, ou vivem uma sensação de insatisfação que as faz procurar cada vez mais estas relações vazias.
De Anamar a 16 de Dezembro de 2009 às 22:03
Um texto muito oportuno, em que a ironia nos faz pensar, MAS:
Acho a net um meio de conhecimento, como qualquer outro.
E quero acreditar que, quando comunico com alguém, por este meio, a pessoa, seja no mínimo quem diz ser. Não precisa de se expor, como eu faço, por defeito, ou feitio meu.Não necessita de facto de dar mais do que o que quer. Ou sabe. Muito menos à responsabilização de tornar seja quem for, único. Mas o que é certo é que se encontram pessoas únicas. O que é certo é que se desenvolvem sentimentos e emoções. E não é por isso que esperamos algo em troca. apenas se sente. Se for correspondido, melhor. Mas já não concordo que uma relação virtual não implique confrontações ou não (des)envolva sentimentos, emoções.
As pessoas não se conhecem e interagem, comentam-se, porque sentem empatia, ou porque algo nos reclama. E é verídica a minha maneira de estar. Como parece ser a de tantos outros.
E o real não é mais chato que o virtual.Que o diga eu com más experiências deste mundo virtual, onde pensava que todos estavam como eu: a serem eles próprios. Adiante :-)
Mas isto sou eu que para fantasiar arranjo outras formas. Nunca com as pessoas. E virtual, pelo significado no Dicionário, quer dizer que está prestes a ser real, a realizar-se.
Mas o perigo deste mundo fácil, é quando descuidamos o outro em que vivemos.
E quem quer viver em permanente fantasia?
Ou ter uma rede de "amigos" que nem conhece , e com quem nem comunica?
Da net, devemos saber aproveitar coisas boas como estas: reflexões que nos alertam para onde queremos caminhar.
Os afectos, aqui também se encontram, mas só depois de conhecer, olhos nos olhos. Na minha opinião:-)
Obrigada por este artigo e desculpa ser tão extensa no comentário.

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