Sexta-feira, 12 de Outubro de 2007

(In)fidelidade

Em conversa com uma amiga, surgiu a seguinte questão, que é aliás recorrente nos dias de hoje: Será o ser humano infiel por natureza?

Será a fidelidade uma construção criada pelas sociedades para garantir que a propriedade privada passe de membros de uma mesma família para outros dessa mesma família? Ou terá sido imposta por razões religiosas? "Não cobiçarás a mulher do outro"?

Ou terá antes a ver com o desejo de posse e sentido de propriedade? De controlo do outro? O medo da solidão? A insegurança?

Será que estamos a contrariar um impulso perfeitamente natural através de mecanismos de culpabilização e falsos critérios éticos e morais?

You tell me.


Buraco tapado por Cosmopolita às 16:19
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16 comentários:
De Citadina a 12 de Outubro de 2007 às 16:56
Bom, bom... Então é nisto que tu pensas quando estás sozinha em casa... Devo preocupar-me?
E já agora, quem é essa amiga?!
De Citadina a 12 de Outubro de 2007 às 17:11
Até que enfim que alguém escreve alguma coisa verdadeiramente interessante neste blog.
De Citadina a 12 de Outubro de 2007 às 17:32
"A fidelidade conjugal é um ideal absoluto da família humana."
Gaudium et spes, 48

Ideal absoluto.

do Lat. ideale

adj. 2 gén.,
que só existe na ideia;
imaginário;
em que há toda a perfeição, que se pode conceber;
s. m.,
perfeição suprema, que só existe na imaginação;
a mais elevada e ardente aspiração.

Perfeição, não num ser imperfeito, mas em dois. Mais difícil ainda.

Portanto é só para dizer que eu, na minha posição delicada, não posso opinar sobre este assunto, portanto deixo aqui a resposta da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana, once again apanhada a dizer disparates.
De Inha a 12 de Outubro de 2007 às 20:11
(Citadina, gostei da posição delicada..depois dás-me a tua opinião ao ouvido, ok!!)

Acho que o ser humano é infiel por natureza, pela sua natureza animal. Agora que a nossa racionalidade nos condiciona os instintos, lá isso condiciona!! Esta racionalidade poderá ter várias origens tais como as que nomeias (segurança, moral, religião, solidão, etc), mas que não haverá um humano que não tenha já sido infiel (mesmo só em pensamentos) lá isso não haverá. Somos animais, temos hormonas, temos instinto sexual, será que fazemos bem em nos reprimirmos tanto? todo este condicionamento auto-imposto faz-nos mais felizes?..tenho dúvidas!!
Beijos
De Cosmopolita a 12 de Outubro de 2007 às 21:27
Inha:

Concordo contigo no achar que todos somos infieis, mesmo que apenas a nível dos pensamentos.

O fazer-nos bem ou não reprimirmo-nos tanto (tanto???) penso que tem a ver com cada caso possível de infidelidade e com as consequências deste serem boas ou más para nós.

Acho que se o condicionamento auto-imposto da fidelidade não nos faz feliz, erntão é porque se calhar já não há muita razão para se estar em casal...

A menos que se saiba gerir, como a maior parte dos homens e algumas mulheres, as infidelidades de forma a sermos felizes em casal e fora dele. Ou então assumindo que não se tem feitio para estar numa ligação fechada.
De Duca a 13 de Outubro de 2007 às 19:56
O ser humano, por natureza, não é monogâmico. Contudo, o surgimento dos clãs (famílias) e consequente necessidade de garantir a protecção da propriedade privada e, mais tarde, o factor religioso, cingiram os seres humanos à monogamia.

O desejo de posse, o controlo, o medo da solidão e a insegurança são sentimentos que advieram da necessidade do Homem se relacionar em grupo e, dos modelos sociais criados e que foi obrigado a seguir para ser aceite no grupo. Estes sentimentos foram transpostos para a relação monogâmica que era (e de certa forma ainda é) o garante da união entre clãs (famílias).

É claro que em termos da nossa natureza estamos a contrariar um impulso que nos é inerente. No entanto, dado o enraizamento dentro de nós de séculos e séculos de um modelo que, mal ou bem, construiu a sociedade tal como a conhecemos, faz com que por vezes optemos por nos mantermos monogâmicos.

Porém, não devemos enganar-nos e acreditarmos que sim, somos monogâmicos por natureza porque nenhum ser humano o é, mesmo que passe toda a sua vida com um só relacionamento. É que, de uma forma ou de outra, ele(a) já desejou outra(s) pessoa(s) e se não se relacionou com quem desejou foi por opção (esforçada).
De nnanna a 14 de Outubro de 2007 às 13:15
Bons dias, minhas amigas. E venho eu dos remansosos golfos amalfitanos desaguar neste rio turbulento, tal Douro da nossa condição humana.

O essencial foi dito e questionado pela Cosmo e doutas comentadoras. Apenas tenho a corroborar que sim, somos infiéis "por natureza", mas não "naturalmente", por razões de séculos e séculos de "enformação" sócio-religiosa-cultural, que designou que tomar outros corpos estando afectiva ou matrimonialmente ligados a alguém era tabú-pecado.

E a infidelidade nem é apenas física...


Beijos!

De nnanna a 14 de Outubro de 2007 às 14:25
Adenda : é claro que há ligações em que os sentimentos são de tal forma vernáculos e rijos, que a mundaneidade da palavra-ideia infidelidade até deixa de existir no dicionário. :)
De celtic a 14 de Outubro de 2007 às 20:54
não estou tão certa dessa vossa convicção da infidelidade como algo tão "natural" nosso. Se observarmos determinados mamíferos superiores, mais próximos de nós, existem espécies que mantêm o mesmo parceiro a vida inteira... outras que nem tanto...
Agora, claro que quando optamos por uma relação existem aspectos que lhe são inerentes e que aceitamos... ou não. Se esses aspectos nos fazem infelizes então mais vale fazer outras opções.

Gostei particularmente o ultimo comentário, por experiência própria. Existem relações em que a palavra infidelidade sai do dicionário.
De sete_sonos a 15 de Outubro de 2007 às 22:29
metendo a foice em seara alheia... como se costuma dizer... apenas uma questão... não faria mais sentido perguntar apenas o que é natural ao homem... não me parece que a fidelidade e a infidelidade sejam por si mesmas naturais ou anti-naturais ... mais do que uma característica essencial disso que é ser homem... parece-me que são sim uma consequência comportamental daquilo que nos é natural...
ou seja... considero que não somos naturalmente fiéis ou naturalmente infiéis... o que nos é natural é procurarmos ser felizes... independentemente do que se possa entender por felicidade...
sendo nós fiéis ou infiéis em função do contributo que esse comportamento pode dar para alcançar aquilo que me parece ser-nos natural... a procura incessante da felicidade!
De Cosmopolita a 16 de Outubro de 2007 às 13:25

Minha cara, continuo a achar que somos todos potencialmente infiéis mesmo que apenas a nível do pensamento.

Concordo com a Nnanna e com o Celtic quando dizem que existem relações em que a palavra infidelidade sai do dicionário. Masmo que, provavelmente, elas não durem para sempre.

Concordo contigo e com o Celtic, tanto que o refiro no meu comentário ao que a Inha disse, que tem tudo a ver com o ser-se mais ou menos feliz de uma maneira ou de outra.

Durante muitos anos e até ter visto o "Closer", nunca me tinha interrogado a sério sobre a questão de, havendo amor numa relação, esta poder acabar. Aquela frase "Why isn't love enough?", deixou-me varada! Até porque fiquei muito marcada por uma colectânea de contos de escritores portugueses que li aos 11 anos e que se chamava "Amar é sofrer".

Depois percebi que o amor não era, por si só, suficiente para uma relação se manter, que tinha também de nos fazer felizes, pois é esse o seu fim último e o mais importante.

Isto é verdade para todos os amores, sejam eles de casal ou não. As relações são como plantas que precisam de ser regadas, senão secam e morrem, deixam de fazer sentido, tornam-se fontes de sofrimento, de angústia, de infelicidade.

As de casal, em especial, precisam de ser cultivadas, porque se convive de forma muito mais íntima. Tem de haver um pouco mais de tudo: amor, amizade, bem estar sexual (é fundamental), respeito, admiração, ternura, compreensão, capacidade de cedência, de construção de projectos comuns, solidariedade, empenho, entrega, cerimónia. Tem de haver algum romantismo de vez em quando e é fundamental haver liberdade e confiança para que as pessoas não se sintam presas, não se façam cenas degradantes e não se anulem enquanto seres individuais.

Todas estas condições são tão raras de conseguir e de manter que julgo que é por isso que esta questão da (in)fidelidade e da duração das relações é tão complexa.

Mas como diria uma pessoa que conheci "Mais vale um fim horrível que um horror sem fim"...
De VH a 9 de Novembro de 2007 às 23:04
Minha querida amiga, se acreditamos em todas estas coisas sobre a (in)fidelidade, então porque nos é tão difícil aceitá-la? Não deveríamos conseguir trabalhar a nossa capacidade de acomodar a "pequena" traição? A pequena, porque a grande presumo que tenha um significado diferente e um impacto inevitavelmente mais sério. Como se mede a dimensão da traição? Pois... nível de afectividade pelo "outro", sei lá... Andamos para aqui às voltas com estas questiúnculas todas e os dias a passar. Dias que já não voltam, horas que se perderam. Isto não é fácil, de facto. Olha, quando nos vemos?
De Cosmopolita a 15 de Novembro de 2007 às 15:08
Minha querida, querida amiga!

Não posso falar pelos outros, mas posso dizer-te porque me é tão difícil aceitar emocional e afectivamente a infidelidade, quando e se tenho conhecimento dela. Por muito que racionalmente se possam compreender os processos, há alguns deles em que a emoção toma conta de nós e nos avassala. Isto no pressuposto de que ainda haja amor no casal...

Acho que nos casos da "pequena traição", se ela não for do nosso conhecimento, nenhum mal daí advém.

Se for do nosso conhecimento, há inevitavelmente uma sensação de menos valia que se instala, de complexos de inferioridade a nível afectivo e sexual, de falta de auto-estima, de passar todo o passado em revista e da sensação de se ter falhado algures, de incompreensão e descompensação, de curiosidade mórbida em se saber como se passaram as coisas sexualmente com o "outro parceiro", de ciúmes irracionais, de medo da perda, de injustiça, de deslealdade, de insegurança, de cobrança, de atenção exacerbada ao comportamento do nosso parceiro, de desconfiança permanente, de medo de nova entrega, de hipersensibilidade doentia, de incapacidade para continuarmos a ser os amantes que éramos antes por receio de comparações, etc.

Se a pessoa que foi infiel consegue perceber o que se passa na cabeça e coração do outro e ter paciência e amor suficiente para aguentar e tentar superar as consequências do seu acto no parceiro, se conseguir fazer que o outro se sinta seguro afectivamente e "vencedor" a nível sexual por comparação com o tal "caso", se não começar a achar que este é um chato e que é estúpido e obsesssivo em não perceber a falta de importância que o seu acto teve para a relação, então acredito que as mágoas com o tempo possam passar e a traição ser perdoada.

Caso contrário a relação fica ferida de morte.

Nos casos da grande traição, não posso apelidá-la de traição porque acredito que só acontece quando já não há amor de casal entre as pessoas. E aí deve conversar-se sobre o assunto e deve cada um seguir a sua vida.

De -pirata-vermelho- a 16 de Outubro de 2007 às 17:03
Defina (in)fidelidade, por favor.
De Cosmopolita a 16 de Outubro de 2007 às 20:57

Caro pirata:

Fidelidade:
do Lat. fidelitate
s. f.,
qualidade de quem é fiel;
observância da fé jurada e devida;
lealdade;
probidade;
firmeza;
afeição dedicada e constante;
probidade escrupulosa;
honestidade;
veracidade
exactidão;
~conjugal: dever conjugal que consiste na dedicação exclusiva de cada um dos cônjuges ao outro.

Infidelidade:
do Lat. infidelitate
s. f.,
falta de fidelidade;
qualidade de quem é infiel;
traição;
deslealdade;
perfídia;
acto de adultério.

Adultério:
do Lat. adulteriu
s. m.,
violação da fé conjugal;
infidelidade conjugal;
falsificação;
adulteração;
facto de uma pessoa casada ter voluntariamente relações sexuais com um terceiro:
violação extrema do dever recíproco de fidelidade.




De celtic a 22 de Outubro de 2007 às 17:29
li algures num coment alguem se referindo a mim no masculino, mas na verdade, sou mulher! e com orgulho! :p

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