Quarta-feira, 2 de Janeiro de 2008

Relato de umas férias a trabalhar

Se pensavas, ó ateia incauta, que lá por te livrares das músicas de natal que te atordoavam no edifício do escritório todo o santo dia, que lá por teres tido o gozo antecipado de desejar ao teu patrão que (se) passasse bem durante a tua ausência remunerada, se achavas que não fazer a árvore de natal nem ostentar quaisquer sinais exteriores de euforia consumista te escudava do ímpeto doentio para celebrar o nascimento de um certo judeu anarquista (a expressão não é minha mas eu gostava que fosse), se pensavas, dizia eu, que te esperava o descanso e o dispor do teu próprio tempo, filha, se sonhavas com lazer e disponibilidade, desenganaste-te, não foi?
Pobre alma sonhadora, até é bonito - e patético também - ainda haver uma criatura capaz de acreditar, aos 35 anos, que é possível relaxar entre o natal e o fim do ano. Mas quando te viste, durante as trinta horas seguintes à saída triunfante do emprego, no epicentro apoteótico do fandango das oferendas, começaste a perder o ânimo, confessa. A "cair na real", não foi? Quem lá esteve diz que foi.
Os nervos consumiram-te de vez naquele engarrafamento sem escapatória onde te meteste quando faltavam dez minutos para o bacalhau estar na mesa da consoada e trinta quilómetros, de onde te encontravas, para lá chegar. Consta que inventaste uns quantos palavrões novos, à custa de justaposições e rearranjos criativos dos conhecidos no repertório popular. Lamentavelmente, o registo desses termos enfáticos perdeu-se dentro do torpor alcoólico em que mergulhaste assim que te foi humanamente possível, pelo que nem para a gíria lusitana conseguiste contribuir, nessa noite, produtivamente.
Também não percebeste porque é que tinham fechado todas as lojas exactamente no dia em que precisavas delas abertas, mas contentaste-te prudentemente com um pequeno almoço na área de serviço mais próxima, partilhando (ainda) o fumo do cigarro com os bombeiros e os anjos da noite que saíam de turno.
Bom, o que é facto é que o referido torpor te acompanha até agora e te permitiu divertires-te sempre que conseguiste sair da cozinha, além de patrocinar esta mania esquizofrénica de falares contigo própria.
Hoje o dia está calmo, entre chuvadas ciclópicas e raios de sol ofuscantes e a vida voltou finalmente ao normal.

Buraco tapado por Citadina às 15:07
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8 comentários:
De -pirata-vermelho- a 2 de Janeiro de 2008 às 15:57
Mas
olhe que é possível , sim, escapar ao jogo anunciado.
Em parte...
1 fugindo de ajuntamentos e de lugares d'ajuntamento
2 devolvendo os presentezecos; p'o ano já não há mais!
Claro que vai haver que quase deixe de lhe falar mas... é remédio santo.
3 nem judeu (Jud, uma tribo no Iemen de antigamente) nem anarquista, apenas pé-desclaço analafabeto mas arrivista e! tal como hoje, '...quem tem um olh'é rei!' Basta lembrar a petulância do Zé-ali-do-lado quando regessou da viagenzita-prémio-de-produtividade ao Dubai-hotel-praia-spa-deserto-perto.

(cada vez mais o seu ateísmo me desconcerta, latu sensu)
De Citadina a 4 de Janeiro de 2008 às 10:58
Querido Pirata,
Eu também quero achar que é possível escapar, mas no fundo sei que é (mais uma) utopia. Ou seja, em condições ideais, até pode ser que exista (a possibilidade), mas as condições ideais, por definição, não existem...
E o ateísmo só costuma desconcertar os crentes... :-)
De Druiel a 2 de Janeiro de 2008 às 16:10
"...vida voltou finalmente ao normal."

Finalmente!
De Citadina a 4 de Janeiro de 2008 às 11:13
O que não é necessáriamente melhor, mas pelo menos é muito mais calmo.
Beijinhos para ti e festas para os cães.
De Vizinhas a 2 de Janeiro de 2008 às 23:08
Help...we need holidays!!!!
Bjkas
(missed u)
De Citadina a 4 de Janeiro de 2008 às 11:17
Missed both of you too, mas os astros não se conjugaram, aparentemente, para guiar o nosso caminho até Vossas Mercês naquela noite iluminada... Espero que se tenham divertido muito, quand même.
Beijo grande!
De Duca a 3 de Janeiro de 2008 às 10:28
Como te compreendo. Se em todos os meus últimos mais de 20 anos, este mês de Dezembro e principalmente entre o natal e o fim de ano, eram uma esquizofrenia, este ano Dezembro foi o mês mais pavoroso de sempre. Por mim, saltava de Novembro directamente para Janeiro. Acabava com o tortuoso Dezembro.

Ainda bem que Janeiro de 2008 já aí está!
De Citadina a 4 de Janeiro de 2008 às 11:21
Estou de acordo! Acabemos com ele já! Na falta de engenho para tal empreitada, hibernemos, ou assim...
Beijo grande!

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