Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2008

Sexualidade – A realidade e o mito

A propósito deste post, deste outro e ainda deste, do qual gostei particularmente, e de muitos outros publicados na blogosfera, achei importante falar a sério da sexualidade feminina, tentando desmistificar alguns dos mitos que sobre ela existem.

Em todas as sociedades há imaginários que são projecções sobre as coisas que as pessoas mais almejam ter ou ser, bem como as frustrações ou medos inerentes. A partir daí constroem-se mitos que nada têm a ver com a realidade. No caso da sexualidade feminina, o estereotipo da mulher ideal corresponde a uma mulher magra, bonita, de cabeleira farta, bem feita, com peito e pernas perfeitas, sedutora, cativante, que tem 20 orgasmos múltiplos numa noite só e que faz o seu parceiro sexual tê-los também. Além disso faz amor ou sexo todos os dias, a qualquer hora e em qualquer sítio ou posição.

Não correspondendo nada disto à realidade (bom, pode ser que haja alguma excepção!), as outras mulheres, quando se comparam com este modelo artificialmente criado, sentem-se obviamente diminuídas e “anormais”, esquecendo-se, como já aqui referi, que a “normalidade” não é mais do que uma estatística representada em curvas de Gauss. E, para não o serem, socialmente e na intimidade, recorrem a todo o tipo de subterfúgios: mentem, fazem sacrifícios insanos, remetem-se ao silêncio sobre si próprias, fingem, etc.

As disfunções sexuais femininas afectam o desejo sexual das mulheres e/ou alteram as respostas psicológicas e fisiológicas do corpo perante estímulos sexuais, causando sofrimento e insatisfação não só na própria mulher, como também no seu parceiro sexual. Há uma série de disfunções sexuais femininas que importa referir. São elas:

Transtornos do desejo sexual:

  • Desejo sexual hipoativo (desejo sexual inibido): deficiência ou ausência de fantasias sexuais e de desejo de ter actividade sexual. A relação sexual é vista como um castigo. É uma situação que provoca sofrimento, insatisfação, frustração, culpabilização e depressão por esta desmotivação e pelos problemas que ela causa ao casal, e em que a mulher usa permanentemente desculpas para evitar a actividade sexual. As causas são fundamentalmente de origem psicológica: negação ao sucesso, prazer e amor, medo de abandono, conflitos, etc.
  • Aversão sexual (fobia sexual): aversão e esquiva fóbica activa do contacto sexual com parceiros, acompanhados de sentimentos de desagrado, repulsa, ansiedade e medo. O simples pensar em sexo é evitado com sofrimento e angústia, podendo mesmo aparecer sinais de pânico: náuseas, suores frios e falta de ar, quando a mulher tenta aproximar-se do parceiro. As causas são fundamentalmente psicológicas: abuso sexual traumático, educação anti-sexual durante a infância, culpas, dificuldade em unir amor com sexo na mesma pessoa (esposa/prostituta), raiva entre o casal, etc.

Transtornos da excitação sexual:

  • Transtorno da excitação sexual feminina (frigidez): incapacidade persistente ou recorrente de adquirir ou manter uma resposta de excitação sexual adequada de lubrificação-turgescência até ao fim do acto sexual. A mulher tem pouca ou nenhuma sensação de excitação. É devida normalmente à combinação de causas orgânicas, emocionais, culturais e sociais, sendo que a social apresenta um peso significativo.

Transtornos do orgasmo:

  • Anorgasmia (inibição do orgasmo): atraso ou ausência persistente ou recorrente de orgasmo, mesmo após estímulo sexual adequado. Pode ser devido a bloqueios emocionais, uso de substâncias químicas e certo tipo de doenças.

Transtornos sexuais dolorosos:

  • Dispareunia feminina: dor genital associada ao acto sexual e que não seja causada por factores orgânicos. Embora a dor seja experimentada com maior frequência durante o acto sexual, também pode ocorrer antes ou após este.
  • Vaginismo : contracção involuntária, recorrente ou persistente, dos músculos do períneo adjacentes ao terço inferior da vagina, quando é tentada a penetração vaginal com pénis, dedo, tampão ou espéculo.

Disfunção sexual devida a uma condição médica geral: presença de disfunção sexual clinicamente significativa, considerada exclusivamente decorrente de efeitos orgânicos.


Disfunção sexual induzida por substância: disfunção sexual clinicamente significativa que tem como resultado um acentuado sofrimento ou dificuldade interpessoal, plenamente explicada pelos efeitos fisiológicos directos de uma substância (drogas, medicamentos ou exposição a toxinas).


Disfunção sexual sem outra especificação: disfunções sexuais que não satisfazem os critérios para qualquer disfunção sexual específica.

Num estudo feito pela Sociedade Portuguesa de Andrologia em conjunto com os laboratórios farmacêuticos Pfizer e divulgado em 2006, pode ver-se que mais de metade das mulheres portuguesas (56%) tem algum tipo de disfunção sexual. Dessas, 19% apontavam mesmo problemas graves. Das quatro principais disfunções sexuais femininas identificadas nesse estudo, 35% têm a ver com falta de desejo sexual, 31,6% com dificuldade em atingir o orgasmo ou com a diminuição da excitação ou da lubrificação e 34% com dor ou desconforto durante a relação sexual.

Naquele que Nuno Monteiro Pereira, presidente da SPA, considera ser "o primeiro grande estudo sobre a prevalência de disfunções sexuais femininas", foram analisados dados referentes a 1250 homens e outras tantas mulheres, com idades entre os 18 e 75 anos, o que inclui as pré e as pós-menopáusicas, que se encontram numa fase da vida em que alterações hormonais levam inevitavelmente a algum tipo de disfunção, como a falta de lubrificação vaginal.

Apenas 44% das mulheres portuguesas inquiridas com mais de 18 anos referiram não sofrer de qualquer tipo de disfunção sexual. O Prof. Dr. Nuno Monteiro Pereira explica que “A mulher precisa de contextualizar e de muito mais ingredientes do que o homem. O desejo masculino está dependente de factores físicos e o da mulher depende de muitos mais factores”. "Os números parecem assustadores, uma epidemia de disfunções sexuais, mas a sexualidade feminina é mais complexa que a masculina" e que os valores têm de ser lidos "com cautela".

"As diferenças entre homens e mulheres sempre existiram, temos é de procurar maneiras de as atenuar, para que não se tornem disfunções", diz Monteiro Pereira.

"A sexualidade da mulher está sobretudo na cabeça. É 80% mental", considera a ginecologista Maria do Céu Santo, que fez parte da equipa coordenadora do estudo. É por isso que grande parte da solução passa pela educação sexual - física e psicológica. Isto é aprender a conhecer e a tratar o corpo e aprender a lidar com as fantasias sexuais. Combater a rotina e manter a arte da sedução no casal são os truques aconselhados por esta especialista.

Este estudo põe ainda a nu a diferença que existe entre a realidade da sexualidade feminina e aquilo que os homens pensam sobre ela. Exemplo típico: 32% das mulheres têm dificuldades no orgasmo mas os homens apenas detectam 24% - ou seja, há pelo menos 8% de orgasmos fingidos, de que os homens nem desconfiam. Outro exemplo: na opinião dos homens a prevalência da dor ou desconforto durante a relação sexual é de 23% (quando na verdade é de 34%). O que prova que, antes de mais, estamos perante um problema de comunicação no casal. Isto apesar de 59% das mulheres conversarem sobre esta questão com o seu parceiro e só 55% procurarem um profissional de saúde. Números que podem dar que pensar, dado a maioria dos problemas serem patológicos - físicos ou não -, comentou o psiquiatra Freitas Gomes. "A educação a esse nível ainda é muito restrita em Portugal e o assunto continua a ser tabu em muitos extractos sociais e culturais".

E o que fazem as mulheres para minorar estes problemas? 55% das mulheres consultam um profissional de saúde mas 39% afirmam não fazer nada. O tabu sobre a sexualidade feminina permanece. Quando se lhes pergunta porque é que não consultam um médico, 59% das mulheres dizem acreditar que o problema "vai melhorar por si" e 58% não o consideram relevante para o seu bem estar.

"As mulheres ainda atribuem uma certa normalidade a um mal-estar que não é normal, é patológico", acredita o psiquiatra, em cujo consultório já ouviu muitos desabafos sobre sexualidades falhadas. Mais de mulheres do que de homens, garante. Fugir a falar do assunto, diz Freitas Gomes, é resultado da educação da nossa sociedade. O treino "deveria começar na escola". Somam-se "medo, infelicidade" e uma boa dose de formatação mediática das mentalidades "A informação que passa da relação humana é má, vive da exploração da mulher".

A informação é, de resto, uma das maiores causas a que este especialista liga a disfunção sexual. Antes de mais, quando toca a perceber que a sexualidade para a mulher é diferente daquilo que é para o homem, contrapondo o conceito feminino de afectividade ao masculino de atracção pelo visual. "Fala-se erradamente como se fôssemos iguais. É preciso ensinar a diferença". Acoplada à falta de informação - até para perceber que se está perante uma patologia - surge justamente, segundo o psiquiatra, a falha na comunicação no casal. Quanto às mulheres que se dizem bem como estão, "é fugir à realidade", afirma Freitas Gomes.

Dito tudo isto, penso que nós mulheres, sobretudo as que são homossexuais ou bissexuais, temos obrigação moral e ética de não encarar “o estar na cama” da mesma forma que a encaram certos homens e, pelos vistos, certas mulheres também. Como muito bem comentou a Duca neste post, “Ora, uma das frases da Ela é "E acredita que esta opinião não é só minha…" referindo-se à qualidade, como amante, da mulher com quem tinha estado. Possivelmente, até já teria uma opinião formada antes do encontro sexual. Ora, se em vez de estar a observar, ao detalhe, a performance da outra, com a qual estava demasiado preocupada, porque razão Ela não fez algo para ajudar a outra a dar-lhe prazer? É que a outra, bem ou mal, esforçou-se. Ela, manteve-se na expectativa a observar com um sentido crítico, nada de acordo com o momento, onde a outra errava e sem a ajudar. Resumindo, quem não deve ser grande coisa sexualmente é Ela que se esqueceu que, de facto, it takes two to tango".

 

Fontes:

www.abcdasaude.com.br; www.cscarnaxide.min-saude.pt; www.diariodigital.sapo.pt; www.dn.sapo.pt; www.hcnet.usp.br; www.ibrasexo.com.br; www.jnsapo.pt; www.destak.pt;  www.medicosdeportugal.iol.pt; www.terapiadosexo.com.br; www.ultimahora.publico.clix.pt.

 

Buraco tapado por Cosmopolita às 18:18
Link do post | Tapa também
2 comentários:
De Estrelaminha a 2 de Fevereiro de 2008 às 11:03
Tem aqui uma pesquisa que vale a pena ler, gostei e alargou um pouco mais os meus conhecimentos.
O ser humano é complexo daí a beleza da vida e das descobertas que vamos tendo a todos os níveis.
O sexo é fantástico quando se sabe usufruir do mesmo e nada se compara quando este é desfrutado com Amor.

De Duca a 4 de Fevereiro de 2008 às 12:17
Excelente post, minha querida. Obrigada por partilhares essa informação que me ensinou imenso. Este é daqueles posts que todas as pessoas deviam ser "obrigadas" a ler.

Beijo

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