Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2008

Os homens da minha geração

Os homens da minha geração enviam e-mails com textos destes às mulheres de quem são amigos.

"AS MULHERES DA MINHA GERAÇÃO

É o único tema em que sou radical e intolerante. Aquele em que não escuto razões: as mulheres da minha geração são as melhores. E ponto final!

Hoje têm quarenta e muitos anos ou cinquenta e tal, e são belas, muito belas, porém também serenas, compreensivas, sensatas e sobretudo diabolicamente sedutoras, isto, apesar dos seus incipientes pés-de-galinha ou desta afectuosa celulite que campeia as suas coxas, mas que as fazem tão humanas, tão reais. Formosamente reais.

Quase todas, hoje, estão casadas ou divorciadas, ou divorciadas e casadas, com a intenção de não se equivocar no segundo intento, que às vezes é um modo de acercar-se do terceiro e do quarto intento. Que importa? Outras, ainda que poucas, mantêm um pertinaz celibatarismo, protegendo-o como uma fortaleza sitiada que, de qualquer modo, de vez em quando abre as suas portas a algum visitante. Que belas são, por Deus, as mulheres da minha geração!

Nascidas sob a era de Aquário, com influência da música dos Beatles, de Bob Dylan, de Lou Reed, do melhor cinema de Kubrick e do início do boom latino-americano, são seres excepcionais. Herdeiras da "revolução sexual" da década de 60 e das correntes feministas que, no entanto, receberam passadas por vários filtros, elas souberam combinar liberdade com coqueteria, emancipação com paixão, reivindicação com sedução. Jamais viram no homem um inimigo, apesar de lhe cantarem algumas verdades, pois compreenderam que a sua emancipação era algo mais do que pôr o homem a lavar a louça ou a trocar o rolo do papel higiénico. Decidiram pactuar para viver em casal com o seu parceiro, essa forma de convivência que tanto se critica, mas que, com o tempo, resulta ser a única possível, a melhor pelo menos neste mundo e nesta vida.

São maravilhosas e têm estilo, mesmo quando nos fazem sofrer, quando nos enganam ou nos deixam. Usaram saias indianas aos 18 anos, enfeitaram-se com colares andinos, cobriram-se com suéteres de lã e perderam a sua parecença com Maria, a Virgem, numa noite louca de sexta-feira ou de sábado, depois de dançar El Raton de Chéo Feliciano, na Terra Corrida ou em Quiebracanto com algum amigo que lhes falou de Kafka, de Gurdieff e do cinema de Bergman.

No fundo das suas mochilas traziam pacotes de rouge, livros de Simone de Beauvoir e cassetes de Victor Jara, e, ao deixar-nos, quando não havia mais remédio senão deixar-nos, dedicavam-nos aquela canção de Héctor Lavoe, que é ao mesmo tempo um clássico do jornalismo e do despeito, que se chama "Teu amor é um jornal de ontem". Vestiram-se de luto pela morte de Julio Cortázar, falaram com paixão de política e quiseram mudar o mundo, beberam rum cubano e aprenderam de cor as canções de Sílvio Rodriguez e de Pablo Milanez, conhecerem os sítios arqueológicos de San Agustin e Tierradentro (nessa época podia ir-se sem temor para a guerrilha, que nostalgia!), foram com seus namorados às praias do parque Tayrona, dormindo em barracas e deixando-se picar pelos mosquitos, porque adoravam a liberdade, algo que hoje inculcam aos seus filhos, o que nos faz prever tempos melhores e, sobretudo, juraram amar-nos por toda a vida, algo que sem dúvida fizeram e que hoje continuam a fazer na sua formosa e sedutora maturidade.

Souberam ser, apesar de sua beleza, rainhas bem educadas, pouco caprichosas ou egoístas. Deusas com sangue humano. O tipo de mulher que, quando lhe abrem a porta do carro para que suba, se inclina sobre o assento e, por sua vez, abre a do seu companheiro por dentro. A que recebe um amigo que sofre às quatro da manhã, ainda que seja seu ex-noivo, porque são maravilhosas e têm estilo, ainda que nos façam sofrer, quando nos enganam, ou nos deixam, pois o seu sangue não é suficientemente gelado para não nos escutar nessa salvadora e última noite, na qual estão dispostas a servir-nos o oitavo uísque e a colocar, pela sexta vez, aquela melodia de Santana.

Por isso, para os que nascemos nas décadas de 60, o dia da mulher é, na verdade, todos os dias do ano, cada um dos dias com suas noites e seus amanheceres, que são mais belos, como diz o bolero, quando estás tu. Que belas são, por Deus, as mulheres da minha geração!

(escrito por Santiago Gambôa, escritor Colombiano)"

Buraco tapado por Cosmopolita às 18:26
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8 comentários:
De Citadina a 13 de Fevereiro de 2008 às 10:18
O que os homens da tua geração querem sei eu!!

É só vê-los escrever estas coisas muito bonitinhas com que vocês se derretem todas e depois perder a cabeça por miúdas 20 anos mais novas que eles!
Pois, pois!!
De Cosmopolita a 13 de Fevereiro de 2008 às 11:07
Quida:

É verdade que os homens (e mulheres também, não sou uma excepção!) são capazes de preferir as mulheres 20 anos mais novas, sobretudo as que são belas, inteligentes e cultas como tu, não digo o contrário.

Mas estamos a falar de ternura, de cumplicidade, de afinidades ideológicas. E porque as duas partes são testemunhas e guardiãs de memórias indeléveis das respectivas juventudes e de tudo o que foi vivido em conjunto.
De Citadina a 13 de Fevereiro de 2008 às 12:26
Estou a ver que também aprendeste as falinhas mansas deles...
De -pirata-vermelho- a 13 de Fevereiro de 2008 às 16:56
Foi você que escreveu isto -não acredito!- ou pediu a alguma colega mais nova?

Que mal haverisa em ter com menos vinte anos que o homem com quem se tem negociações?
De Cosmopolita a 13 de Fevereiro de 2008 às 17:19
He he he, não lhe escapa uma!
Sim, fui eu que escrevi, mas não disse que havia mal nenhum, só acho graça a esse discurso de "as mulheres da minha geração [que não é a minha, é a da Cosmo] são as melhores", mas na verdade são tão boas quanto as outras, é conforme o objectivo ou motivação que esses homens tenham nesse momento, está a perceber?
Não há nada de mal em uma pessoa se relacionar com alguém mais velho ou mais novo, apenas é engraçadíssimo este elogio a roçar a hipocrisia, foi o que quis dizer. Agora já acredita?
De Duca a 13 de Fevereiro de 2008 às 10:41
O texto é muito bonito, sem dúvida, mas não me convence.

Concordo com a Citadina. São palavras, não mais que palavras para nos "derreterem", o pior vem depois ...

Não, não é cepticismo, é realismo.

Beijo

De Cosmopolita a 13 de Fevereiro de 2008 às 11:18
Duca:

Que maneira tão radical de ver os homens! Palavras para nos derreterem usam-nas os homens e as mulheres, como bem sabes. E o pior tanto pode vir depois de uns como de outros...

Gosto muito dos meus amigos homens, daqueles que fizeram e ainda fazem parte da minha vida. É um amor mútuo, inequívoco, equalitário e cúmplice. Fui e sou confidente da maior parte deles, trataram-me sempre como um deles, sabendo que os compreendia e que não os julgava. Não se julgam os amigos, eles são como são.

O realismo é isto e recuso-me a ver as coisas sob o teu prisma céptico e feminista radical.

Dois grandes amigos meus já morreram e a Citadina sabe quanta falta me fazem, como tenho saudades deles, como os chorei e como guardarei sempre a sua memória dentro de mim. Sabe também que qualquer deles a respeitava e gostava dela como minha companheira.

Que há de errado ou estranho nisso?
De Duca a 13 de Fevereiro de 2008 às 15:08
Minha querida,

Por acaso nem me estava a referir aos homens em particular. Repara que não falo no masculino. Estava a referir-me a pessoas. Até porque por experiência, sei que há mulheres que, como alguns homens, utilizam palavras sem que os sentimentos sejam coincidentes. Aliás, até há mulheres que choram baba e ranho por um amor e pouco tempo depois estão a trair esse amor da forma mais torpe.

Por isso ... continuo a dizer, palavras muito bonitas, mas palavras leva-as o vento.

Beijo

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