Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2008

Do amor e outros demónios

Tenho estado a ler o livro referido neste post e registei algumas passagens curiosas (e eventualmente controversas - you tell me).

"O jazz, lembremos, está erigido sobre dois pilares. O espaço harmónico e a improvisação; a plataforma sonora e constrangida e a presença de uma melodia e de um ritmo libertadores: norma e dissidência. O jazz, como todos os sistemas estéticos, é definido por este jogo intermitente de imposição e oposição. Mas em todos os campos da alma – quer falemos de música, de literatura ou de amor – cada indívíduo, todos nós, sonha, sonhamos, praticamente exigimos, a partir da norma, a improvisação. O que esta manifesta é um impulso para a liberdade, para o próprio critério. Esse é o atributo máximo do jazz.

E, nesse sentido, também o jazz é como o amor. Porque é verdade que não há nada mais opressivo do que um terreno limitado, mas não há nada mais apaixonante do que subvertê-lo. O amor improvisa-se a cada dia, e a verdade é que, se quisermos sobreviver sentimentalmente, devemos converter-nos em dissidentes do amor, na vanguarda do amor, aprender e executar maneiras diferentes de o interpretar.

A sociedade ocidental está pejada de junkies do amor. Ou melhor, junkies de um conceito de amor muito particular que não tem nada a ver com a ideia de uma relação livre, sã, consensual e mutuamente respeitosa entre duas pessoas, mas sim com a de uma desordem esgotante e conturbada que prejudica, inicialmente, o bem-estar emocional e, por fim, a saúde e a integridade física. Nesse sentido, o amor é a droga mais dura.

O amor a que este junkie tão especial fica agarrado está enfeitado com as ilusões do eterno. Todos os especialistas da paixão no-lo dizem: não há amor eterno se não for contrariado, não há paixão sem luta, mas esse amor só termina na última contradição, que é a morte. Há que ser Werther ou nada. Há também muitas maneiras de se suicidar, uma das quais é a dádiva total e o esquecimento da própria pessoa. Aqueles a quem um grande amor afasta de toda a vida pessoal empobrecem-se e empobrecem, ao mesmo tempo, aqueles que escolheram para objecto do seu amor. Os que dão tudo por amor têm, necessária e paradoxalmente, o coração seco, pois está afastado do mundo.

E, como cereja deste bolo, surge como decoração e bem no alto o grande mito do século XX, o do amor eterno que afirma que o amor verdadeiro, o sublime, o autêntico, o original (recuse as imitações), ultrapassa tudo e tudo pode. Este mito deixa-se ver na maior parte dos nossos filmes e romances. Bem como na complacência que despertam e nos sonhos que geram e sustentam, e bebe da mesma fonte que a crença em que o amor é mais destino que vontade, que se sente mais do que se constrói e que nos há-de consumir com o mais puro e verdadeiro fogo que arrasa à sua passagem, com felicidade, as convenções, a sociedade e a moral. Racionalmente, todos e todas sabemos que a paixão e o desejo acabam, que a vida em comum é complicada e implica uma negociação constante, que a convivência transforma irremediavelmente o desejo selvagem em simples afecto, por mais que este possa ser muito mais profundo que os laços físicos. Sabemos que o amor é uma coisa, mas fantasiamos com outra: um amor eterno, único e permanente no tempo. Esta é uma fantasia muito perigosa porque conta com o apoio social e se refere à ideia de amor para toda a vida que impede o realismo afectivo e exige de quem ama uma entrega incondicional, sem reservas, auto-destrutiva.

Uma relação dependente dá-nos a sensação de termos pelo menos uma pessoa com quem podemos contar e de pertencermos a alguém. Uma certa segurança emocional, por mais artificial que seja.

Mas alto aí: não existe família não problemática, dado que todas o são.

...Porque a maioria das pessoas, (...), cresceu em famílias com problemas mais ou menos graves e, se cada um de nós pensasse que a raíz dos nossos males foi adubada no fértil terreno das disfuncionalidades da nossa casa, estávamos feitos. É que se cada um de nós responsabilizar outrem (família, chefe, namorado, sociedade...) pelos seus problemas, estaremos a delegar nesse outro a sua solução, e assim não há forma humana de sair do atoleiro.

Mas há uma coisa muito simples de entender:

SE NÃO É FELIZ NUMA RELAÇÃO,
ESSA RELAÇÃO NÃO LHE SERVE.

E ponto final.

Só pode dar-se e receber-se livremente. Por isso, é muito perigoso equiparar o amor à posse. Uma pessoa deve estar ao nosso lado porque decidiu e não porque lho imponhamos....... Desta forma, não se pode exigir o afecto ou o compromisso só porque “tu és meu” ou “eu que te dei tanto” ou ninguém vai amar-te como eu”. As chantagens sentimentais nunca conduzem a parte alguma. Sufocam quem as recebe e denigrem quem as exerce."

 

Buraco tapado por Cosmopolita às 13:11
Link do post | Tapa também
6 comentários:
De tangas a 27 de Fevereiro de 2008 às 12:52
e eu a julgar que as chantagens emocionais eram justamente a moeda de troca mais comum nos amores... ;)
De Cosmopolita a 27 de Fevereiro de 2008 às 16:19
Cara Tangas:

Achei graça a este comentário. É um facto que muitas relações, não só de casal, enfermam deste mal.

Mas, como todos os males, depois de identificados, só não se cura quem não quer...

Um abraço
De Duca a 27 de Fevereiro de 2008 às 15:04
Tu sabes que li esse livro numa época em que precisava melhorar a minha relação de muitos anos. Detectei, na altura, os erros que fui cometendo e, também, os erros cometidos pela minha companheira. Infelizmente, não fomos a tempo de melhorar a relação porque, entretanto, ela terminou.

A dependência emocional, o ciúme, a posse, a exclusividade, a concessão em partilhar com a outra pessoa tudo o que respeita apenas à nossa individualidade ou à individualidade de alguém de partilhou connosco pedaços da sua vida, mina qualquer relação mais tarde ou mais cedo. Esvazia-nos de conteúdo e o preço que pagamos quando a relação termina é demasiado alto. Depois, ou aprendemos a lição ou não. Depende de nós.

Infelizmente, esta forma errada de estar no amor é a mais comum, principalmente, no amor entre mulheres.

Por isso, não pude deixar de sorrir com o comentário da Tangas.

Beijo
De Cosmopolita a 27 de Fevereiro de 2008 às 17:42
Querida Duca:

Aprender até morrer, sempre, sobretudo com os nossos próprios erros, mas não só.

Devo dizer-te que achei algumas passagens algo controversas. Bem vês, eu sou daquelas que acredita que pode haver amor eterno, até porque me apaixono regularmente como uma adolescente pela pessoa que amo, independentemente do tempo que possamos estar juntas...

Também não acho que o desejo acabe e se transforme em simples afecto, mas se calhar é porque ainda não cheguei lá.

Quanto ao resto, devo dizer-te que numa relação de afecto, seja ela de casal ou não, eu sou dependente emocionalmente. Não no sentido em que não consigo levar uma vida independente das pessoas que amo, mas sim porque elas me fazem uma falta saudável.

Sempre tive e dei uma grande liberdade aos meus amores (filhos, amigos, amantes, cônjuges) e acho que não abdiquei de ser quem sou, goste-se ou não, por causa de nenhuma outra pessoa, nem exigi que o fizessem por mim. Máxima liberdade e máxima responsabilidade. E, sem confiança, não é possível ter-se uma relação saudável com ninguém.

Como diria o meu poeta "A emoção é como um pássaro, quando se prende já não canta". Às vezes há essa tentação, quando a pessoa se sente menos segura, mas não pode ser esse o caminho, ele não leva a lado nenhum.

Também, ao contrário do que dizes, não acho de todo que "esta forma errada de estar no amor é a mais comum, principalmente, no amor entre mulheres". Pelo que tenho visto na vida, ela é apenas comum aos seres humanos, mais nada.
De Duca a 28 de Fevereiro de 2008 às 10:24
Eu também acredito no amor eterno, Cosmo! Só que esse amor eterno não tem de ser sentido pela mesma pessoa.

"Máxima liberdade e máxima responsabilidade. E, sem confiança, não é possível ter-se uma relação saudável com ninguém."

Sempre defendi este princípio. Comigo só está quem me ama, enquanto me ama (ou julga que me ama) e em liberdade. Infelizmente, nem sempre a pessoa com quem partilhamos a nossa vida pensa e age do mesmo modo.

Beijo
De Cosmopolita a 28 de Fevereiro de 2008 às 10:57
Embora não seja o meu caso, infelizmente é verdade. Estou plenamente de acordo contigo, querida.

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