Segunda-feira, 10 de Março de 2008

Ele são todos!

Como mãe e ex-professora participei solidariamente na “marcha da indignação” dos professores que ocorreu no dia 8 de Março, dia internacional da Mulher.

Este braço de ferro entre professores, seus representantes e o Ministério da Educação, a que o Governo já nos acostumou também noutros sectores, e as críticas que antecederam ou que se seguiram à manifestação, faz-me lembrar aquela anedota caricata em que um tipo sem carta vai comprar um automóvel a um stand. Sai com o carro, liga o rádio e entra descontraidamente na ponte 25 de Abril em contra-mão. Começa a ouvir na rádio uma notícia de alerta da brigada de trânsito a chamar a atenção dos automobilistas para o facto de ir um maluco em contra-mão na ponte. Alarmado o tipo olha à volta e diz “Um maluco? Ele são todos!”.

Pois é mesmo o que parece. Há meia dúzia de pessoas que, “esquecendo-se” que o Estatuto da Carreira Docente, a prova de ingresso na carreira, o sistema de avaliação de desempenho dos professores e o seu timming, a separação entre professores titulares e não titulares, o novo modelo de gestão escolar, o pagamento de horas extraordinárias, etc., deveriam ter sido atempada e pacificamente negociados entre as partes e não impostos de forma arbitrária, alguns dos quais a meio do ano lectivo, a toda esta classe profissional, se arrogam o direito de considerar os docentes uns malandros e preguiçosos irresponsáveis.

A Ministra da Educação, tal como o Primeiro-ministro e outros agentes do Governo, sofrem de um autismo grave e revelam nas medidas que tomam, eles, algumas Direcções Regionais, e presidentes de Conselhos Executivos, certos polícias que ousam inquirir sindicatos e escolas e identificar professores, as juntas de aposentação, etc., uma assustadora tendência para utilizar métodos fascistas e pidescos, anti-humanitários e anti-sociais na implementação das suas políticas. E utilizam aquela regra de que uma mentira mil vezes repetida se torna verdade.

Fartos deste autoritarismo cego, destas atitudes prepotentes e profundamente anti-democráticas, das intimidações a que têm sido sujeitos, fartos do desrespeito, violência e insegurança de que são vítimas nas escolas, de serem obrigados a trabalhar mesmo quando têm doenças terminais, das tentativas de desmantelamento do ensino especial e do ensino artístico, dois terços dos professores deste País manifestaram o seu mais veemente protesto nesta marcha da indignação, que contou com presença da Associação Nacional de Professores, pela primeira vez, nos últimos 23 anos.

Cerca pois de 100 mil dos 143 mil professores do País participaram nesta marcha, número que excede largamente as fronteiras do PCP, partido que tão acusado tem sido pelo Governo de promover toda a contestação social. Muitos deles são professores há mais de 20 anos e nunca tinham participado numa manifestação. Outros, apesar de terem votado no PS, não abdicaram de mostrar a sua indignação. Novos e velhos, homens e mulheres, de todos os quadrantes políticos, a motivação de todos era só uma: não deixar destruir a escola pública.

Toda de negro, de cravo vermelho ao peito, Ana Benavente, ex-secretária de Estado da Educação do Governo de Guterres, fez questão de se associar ao protesto. “Achei que, num acto de cidadania, devia estar ao lado dos professores”, explicou ao ‘CM’. Crítica sobre a actual política, sublinhou que “neste campo o PS está errado”. Não pediu a demissão da ministra, mas aconselha-a a “reflectir”.

Fiquei embasbacada e indignada com a Opinião de Emídeo Rangel no Correio da Manhã, com o título “Coisas do Circo – Hooligans em Lisboa”. Aproveito para transcrever aqui algumas destas “pérolas”:

“Eles aí estão ‘em estágio. Faz-me lembrar os hooligans quando há uma disputa futebolística em causa. Chegaram pela manhã em autocarros vindos de todo o País, alugados pelo Partido Comunista. Vestem de preto e gritam desalmadamente.

Se reduzirmos à expressão mais simples as suas pretensões tudo se pode resumir assim:

– Portugal não pode continuar a pôr cá fora jovens analfabetos, incultos e impreparados, como acontecia até aqui.

– Os professores colaboraram com um sistema iníquo que permitia faltas sem limites, baixas prolongadas sem justificação e incumprimento dos programas escolares.

– Os professores não são todos iguais. Quero referir-me àqueles que sem nenhuma vocação (com ou sem curso Superior) instalaram um culto madraceirão que ninguém punha em causa nem responsabilizava, mas que estava a matar o ensino.

Confesso que tenho vergonha destes pseudoprofessores que trabalham pouco, ensinam menos, não aceitam avaliações e transformaram-se em soldados do Partido Comunista, para todo o serviço.

O PCP pode usar a tropa de choque que agora arranjou para enfraquecer o Governo e utilizar as suas artes de manipulação e demagogia até a exaustão. Mas creio que a reforma tem de se fazer, a bem do País. É absolutamente nítido que os professores não têm razão.”

É mesmo de bradar aos céus esta opinião! É certo que há em todas as profissões pessoas sem vocação, incompetentes, preguiçosas, oportunistas, calonas, etc., mas será que o são dois terços de uma classe profissional? Será que se pode falar desta forma insultuosa, paternalista e difamatória da generalidade dos docentes? Será que eles são todos atrasados mentais, imbecis manipulados pelo PC e BE que, segundo a direita, têm como único objectivo a desgraça desta País? Será que alguém acredita nisto?

E a Ministra compreendendo muito bem “as razões da manifestação” e admitindo que a tutela “está a pedir às escolas mais esforço e mais trabalho”, tendo em conta o aumento do número de alunos, “sacrifícios” que recaem directamente sobre os professores, nem se demite nem abdica da sua posição irredutível, do “quero, posso e mando”, do “ou vai ou racha”. Isto, na minha opinião é que é hooliganismo!

Buraco tapado por Cosmopolita às 15:43
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17 comentários:
De Duca a 10 de Março de 2008 às 16:05
"Isto, na minha opinião é que é hooliganismo!"

Sem dúvida e mais não digo porque se começasse a despejar o saco, ainda corria o risco de ser presa, torturada e mandada para o degredo.
De Cosmopolita a 10 de Março de 2008 às 16:13
Pois é querida Duca! Já só falta isso mesmo. Isso e as cargas da polícia e da cavalaria. E, como já não temos colónias, ainda corrias o risco de ir num dos vôos da CIA para o degredo em Guantanamo!

Não é mesmo um déjà-vue?
De Anónimo a 10 de Março de 2008 às 22:37
Muito bem cosmopolita!
Só acho que o sr. ER não tem qualquer credibilidade para falar da escola nem dos professores. O seu artigo é de uma pobreza de discurso confrangedora. Não argumenta, nem fundamenta. Insulta e mais não faz.
Citar palavras do sr ER, "jamé"!
De Anónimo a 10 de Março de 2008 às 22:40
faltou-me o principal: agradecer-te a solidariedade!
De Cosmopolita a 10 de Março de 2008 às 23:08
Tens toda a razão querida Lou. E a solidariedade não tens que a agradecer. Só bestas de determinado tipo é que não o são. Mas esses também não sabem o que é ganhar a vida com suor do rosto deles! Beijos
De nnannarella a 12 de Março de 2008 às 22:05
Tenho pena de vos ter perdido na marcha dos cem mil. O tlm ficou no carro da minha boleia e já não consegui ser contactada pela D. que tinha ido pôr a F.

Excelentes considerações, Cosmo. Talvez vos interesse dar uma olhadela e seguir o debate na Tia, aqui: http://tiadoptada.blogspot.com/2008/03/ainda-avaliao.html .

Beijos .
De Cosmopolita a 20 de Março de 2008 às 12:10
Olá querida Nnanna, bons olhos te leiam já que ver-te não conseguem!

Para quando uma tertúlia?

Beijos
De Viz a 14 de Março de 2008 às 18:51
Olá vizinhas
tudo bem? Estou a ver que andamos a manifestar!!!
Beijokas
De Cosmopolita a 20 de Março de 2008 às 12:12
Olá querida Viz, bem vinda! Claro que andamos sempre a manifestar-nos por causas que entendemos justas!

Quando acabarem o vosso retiro dêem notícias para tomarmos um cafezinho.

Beijos
De tangas a 18 de Março de 2008 às 07:59
já vi cairem governos e ditadores com muito menos que cem mil. cruzo os dedos...
De Cosmopolita a 20 de Março de 2008 às 12:15
Olá tangas!

Pois...mas o pior é que não há alternativas. Cada vez estou mais convencida que são os movimentos de cidadãos que irão fazer a diferença.

Um abraço
De tangas a 22 de Março de 2008 às 13:28
talvez seja por aí sim, com um novo tipo de organização social impulsionada pelas novas tecnologias e diferentes modelos de pensamento.
De Lena a 25 de Março de 2008 às 22:01
Olá, já conhecia o vosso belíssimo blog, embora não o visite muitas vezes:(
Estou feliz por saber que há inteligentes praticantes. Obrigada pela solidariedade.
Gostei da imagem do indivíduo em contra-mão.
Em relação à Sra Ministra, há meses que anseio desesperadamente formulhar-lhe duas questões, olho no olho: 1ª - gostaria de saber que medicamentos milagorosos toma, que tornam a "realidade" tão bela e serena; 2ª - não posso dizer aqui...:P
Beijos para vocês.
Lena

De Cosmopolita a 28 de Março de 2008 às 13:25
Olá Lena, obrigada pela sua visita e volte sempre!

Fiquei cheia de curiosidade reativamente à sua segunda questão...

Beijinhos
De Lena a 30 de Março de 2008 às 23:14
Já voltei...e não é preciso tratares-me por você, ainda ontem estivemos na cavaqueira ;)
Bjs
Lena
De Cosmopolita a 31 de Março de 2008 às 11:43
Ah, ok! Já estou a ver.

Beijos
De Ricardo Costa a 3 de Junho de 2008 às 11:35
Não estranham que só ao fim de 3 nos de denuncias haja uma resposta do município, e oportunamente enviada por um assessor???
À, já me esquecia é que para o ano que vem, 2009, há eleições e eles querem os vossos votos, por isso nada melhor do que vos passar, mais uma vez, a mão pela cabeça, deixando-lhes o recado: votem em mim que sou um "tipo fixe". Mas qual a diferença entre os representantes do PS, do PSD, Ou do CDS/PP. Alguém os sabe diferenciar??? Eu, há 30 anos que os vejo falar, mas nunca os vi alterar nada. E se pensam que tendo para os outros partidos com assento parlamentar, desenganem-se, porque estes, sobre tudo o PCP, já tiveram tempo de fazer a diferença, mas nada feito, porque aquilo que procuram é também um lugarzito ao sol das instituições públicas que se conseguem permitindo e fechando os olhos ao que se vai passando nos governos.
Vivemos actualmente num estado dominado pela alta corrupção e jogos de interesse, onde não interessam as pessoas que vivem em bairros como a Alta de Lisboa, mas sim os especuladores de terrenos e as empresas de construção. Porque efectivamente são esses que dão lucro, as pessoas só dão votos para que eles possam continuar com os seu jogos de interesse pessoal e partidário.
Resumindo não é de admirar que da Câmara Municipal tenham obtido uma resposta a um ano das próximas eleições.

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