Segunda-feira, 21 de Abril de 2008

Heteronímias ao sol

Hermengarda sentia-se bastante mais confusa ontem à noite, e portanto bastante mais capaz para a escrita do que neste momento. Gostaria de recuperar essa confusão angustiante que lhe tira o sono todas as noites de Domingo, mas não o bastante para lamentar o estado sossegado e confortável de apatia intelectual que é o seu modus vivendi durante as horas mecânicas de trabalho no escritório.
Por isso, ela não pode ser considerada brilhante nem corajosa, porque se fosse, o seu brilhantismo não se manifestava apenas quando é impossível registá-lo, encarcerado na sua cabeça a desoras em que o raciocínio mal se vê por entre a bruma da sonolência e está escuro demais para encontrar uma caneta e um papel antes que a inspiração se desintegre. Se fosse corajosa, ia à procura da caneta e do papel, não obstante as ínfimas probabilidades de os encontrar em tempo útil (estando obviamente excluído o laptop, por causa da eternidade que o Windows demora a arrancar). Hermengarda ronda a genialidade sem nunca lhe tocar, sempre por medo de dar um passo que a desiquilibre para o vazio.

Talvez Pessoa também utilizasse as suas horas de trabalho por conta de outrem para escriturar com retorcido gozo poemas formatados pela transgressão, pensa ela, tendo para si que ele não podia ser tão enfastiante no trato diário quanto o seu aspecto físico ameaçava.  Pelo menos no âmago privado da sua comunidade heterónima, ele era brilhante, corajoso e admirado por todos os membros do clube, embora à luz crua das manhãs públicas parecesse apenas mais um bêbedo lingrinhas e reaccionário. Pessoa, se fosse hoje, faria de certeza muitos blogs.
Hermengarda assume-se bipolar, mas tem uma pena secreta de não ser tripolar, porque sente que assim não pode viver em pleno a sua heteronímia transsexual. Pessoa experimentou-o na pele de Maria José, embora apenas o tempo suficiente para escrever uma carta. Mas experimentou. Enquanto Hermengarda não experimentar, não vai conseguir saber quem de facto é. Se ela quisesse experimentar, faria um blog secreto e não o revelaria a ninguém, nem mesmo a si própria.

Buraco tapado por Citadina às 17:30
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8 comentários:
De Observador a 21 de Abril de 2008 às 19:36
Que texto!
Senti-me preso, sei lá porquê.
Reli-o.
E a carta...

Cinco estrelas, minha senhora.

Deixo-lhe um beijo, se me permite.

Obrigado
De Citadina a 22 de Abril de 2008 às 18:12
Obrigada eu.
De A metade a 21 de Abril de 2008 às 20:41
Parece-me que sempre tens mais cara de Hermengarda do que de "estrangeira"...
Esquizofrenias à parte, noutras vidas, noutro tempo noutro lugar (?) teriamos tempo para nos dedicarmos a ser alter-egos mais ou menos inconformados e mais disponiveis para os prazeres (da escrita) de que a exorciza-los como rituais de passagem (crise) por breves minutos.
Quando "abrimos a boca" para falar do mundo acabamos por falar sempre muito sobre nó proprios.
De Citadina a 22 de Abril de 2008 às 18:22
Quanto à cara, tem dias. Afinal é isso a esquizofrenia.
Quanto ao tempo, há que não ter vergonha dele, do que passou e do que nos fez passar. Há, isso sim, que aprender, aprender sempre, mesmo que estejamos muito cansados, pois é essa a melhor maneira de exorcizar.

De BrokenAngel a 22 de Abril de 2008 às 12:44
Todos temos aqueles momentos em que, se houvesse um computador por perto, escreveríamos dos melhores textos que alguma vez produzimos... Quantos textos escrevi eu em pensamento?

Leitura cativante... vou manter um olhar atento neste bulógue!
De Citadina a 22 de Abril de 2008 às 18:25
Oburigada.
De ela.feronica@gmail.com a 24 de Abril de 2008 às 00:46
Já percebi que apareci em boa altura. Gostei mesmo muito deste post.
Quer o texto seja fruto de um exercício de escrita, ou mesmo só de uma "auto-recriação" de um estado esquizóide dissociativo, a verdade é que me agarrou do principio ao fim.
bjs
De Citadina a 24 de Abril de 2008 às 10:19
Ora, ora, muito obrigada, não só pelo elogio que, vindo de quem vem, me é caro, como também pelo aparecimento, que era há muito desejado!

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