Quinta-feira, 8 de Maio de 2008

Ei-los que partem

Por razões profissionais, de sobrevivência e um certo espírito aventureiro, tive de viver por largos períodos da minha vida emigrada. Como referi aqui, recuso-me a viver com uns míseros tostões ou de subsídios de desemprego e sem trabalho ou feita pária à força pelo próprio sistema que vigora em sucessivos (des)governos no meu País. "O trabalho dignifica o Homem" é uma filosofia de vida que mantenho desde sempre e que tentei transmitir aos meus filhos.

Julgo que ninguém que não tenha estado emigrado pode perceber na sua plenitude o que isto significa. Estar longe dos filhos, pais, amigos, da cultura, da comida, do clima, de tudo o que nos atrai e identifica com um determinado sítio. O desenraizamento, a solidão e a saudade são os sentimentos mais dolorosos que nos avassalam então.

Tenho trabalhado sempre em equipas masculinas e em países em que tenho sido, quase sem excepção, a única mulher estrangeira a trabalhar. Estivemos em sítios que não lembra ao diabo. Convivemos com povos e culturas que são desconhecidos para a maior parte das pessoas. Comemos coisas estranhíssimas e outras maravilhosas. Viajámos em executiva e em aviões a cair de podre e sem manutenção. Vivemos em hotéis de cinco estrelas e em autênticas espeluncas. Apanhámos dos 50 graus à sombra até aos 40 graus negativos e às tempestades de neve que nos conservavam vestidos e sem dormir por 3 dias em aeroportos apocalípticos. Conhecemos técnicos extraordinários e pessoas impolutas e dignas e conhecemos mafiosos e crápulas de toda a espécie.

Chorei muitas vezes em privado, tal era a solidão e o sofrimento que a distância dos meus me causava. Do mesmo modo, nunca vi os meus colegas queixarem-se em público, nem chorar nem deprimir. Eles tinham uma forma própria de combater a solidão: arranjavam namoradas, putas ou outras formas de substituição temporária de afecto.

Ouvi muitas confidências deles. Estavam ali, tal como eu, na frente de batalha, para sustentar as famílias e por falta de oportunidades em Portugal, quer devido à sua profissão, quer devido ao facto de Portugal mal lhes pagar para sobreviverem. Amavam as mulheres, mas desorientavam-se por vezes com outros afectos. Um provável complexo de culpa fazia com que recorressem a mim para tentar expurgá-la à laia de confissões livres de condenação. Sabiam que eu guardaria segredo, que os aconselharia, que não os julgaria à luz de dogmas moralistas. Era como se fossemos uma família em que cada um se preocupava genuinamente com todos e cada um dos outros.


Quando se deu a dissolução da URSS, ouvi muita gente de lá revoltada com a perda da maior riqueza que um País pode ter: a fuga dos seus melhores quadros. Cientistas, quadros técnicos, músicos, ginastas, artistas, escritores.

Em Portugal é ao contrário. Que nos vamos embora é o que nos desejam e incentivam a fazer. Hoje em dia são cerca de 5 milhões os portugueses emigrados, sem que haja fascismo que o justifique. Faz-me sempre lembrar aquela canção de Manuel Freire:

“Ei-los que partem
novos e velhos
buscando a sorte
noutras paragens
noutras aragens
entre outros povos
ei-los que partem
velhos e novos

Ei-los que partem
de olhos molhados
coração triste
e a saca às costas
esperança em riste
sonhos dourados
ei-los que partem
de olhos molhados

Virão um dia
ricos ou não
contando histórias
de lá de longe
onde o suor
se fez em pão
virão um dia
ou não”

Buraco tapado por Cosmopolita às 11:35
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2 comentários:
De Observador a 8 de Maio de 2008 às 18:08
O texto está muito bem elaborado.
O que por si só seria, desde logo, uma chamada de atenção.
Mas a coisa vai mais longe. Aborda um tema que está, infelizmente, na moda e pelos piores motivos.
A emigração. "Classe" a que pertence actualmente, mais de metade da gente nascida em Portugal.

É preciso entender o que a Cosmopolita aborda, sem reservas.

Muita gente sofreu com o fenómeno emigração.
Por isto ou por aquilo.

Nunca emigrei mas, acredite, percebo muito bem do que fala.

Há culpas e culpados. Governos, a que a Cosmopolita tem o cuidado de colocar um (des) antes, obrigam cada vez mais o seu povo a pensar em alternativas a este "status quo".

Portugal merece mais.
E o seu povo também.

Obrigado por ter abordado um tema curioso duma firma inteligente e realista.

Cumprimentos
De Cosmopolita a 14 de Maio de 2008 às 12:20
Caro Observador, infelizmente não se pode dizer que está na moda. Sempre esteve mais ou menos na moda por uma ou outra razão. Somos um povo condenado à expatriação ou a ficar e viver uma vidinha medíocre. O nosso valor só é reconhecido lá fora, veja os casos dos prémios atribuídos por outros países/instituições estrangeiras a portugueses que cá nem são conhecidos.
Concordo consigo quando diz que Portugal e os portugueses merecem mais, mas o que faz a maioria deles para que as coisas mudem?

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