Quinta-feira, 10 de Julho de 2008

As boas da Tijuca

Há uns anos dei alguns passeios pelo Parque Natural da Tijuca, no Rio de Janeiro. Dizem que a Tijuca é a maior floresta urbana do mundo e eu não me admirava nada se fosse mesmo, a avaliar pelo tamanho da mancha verde que se vê na imagem de satélite.

(Clique na imagem para aumentar)

Esses passeios são visitas guiadas que os turistas contratam, e há uns programas melhores e outros piores, mas quase todos incluem uma caminhada por um ou mais trilhos da floresta. Eu fiz vários, devido a essas armadilhas em que caem os turistas acidentais. Esta resume-se ao seguinte: qualquer que seja o passeio turístico que se contrate no Rio, ele inclui sempre uma visita à Floresta da Tijuca. Se é para ir à Rocinha, o passeio inclui a floresta. Se é para ir fazer um vôo de asa Delta, o passeio inclui a floresta. Se é para ir ao centro histórico, não sei como mas eles arranjam maneira de incluir a floresta.

As empresas que organizam os roteiros vivem na esperança de que ninguém se importe e, de facto, é mais ou menos isso que acaba por acontecer. Mesmo aos turistas que já visitaram a Tijuca basta dizer "Não quero fazer esse trilho porque já o fiz, quero fazer outro." e como há tantos e tantos locais magníficos a explorar, é fácil para os guias redesenharem os percursos.

E, admitamos, a Floresta da Tijuca é dos lugares mais interessantes que se pode visitar naquela cidade, constituindo assim um enriquecimento certo de qualquer roteiro.

Num dos tais passeios eu era a única que falava português de entre um grupo de turistas e, por isso, o guia escolheu-me como interlocutora privilegiada, até porque o meu inglês era muito melhor que o dele e eu ia-o ajudando nas traduções. No meio das explicações sobre a fauna e a flora, referiu que os responsáveis do Parque tinham introduzido duas boas da Amazónia na floresta para ajudarem a controlar a população de macacos.

Não sei se é verdade ou não, mas faz parte desse espírito carioca fascinar o turista com factos radicais sobre a natureza exuberante que constitui o âmago da Cidade Maravilhosa. Isso serve também para desviar a atenção dos problemas sociais da cidade, mas diga-se, em abono da verdade, que há uma cultura notória de defesa do ambiente, da qual é natural que os cidadãos locais se orgulhem e para a qual gostem de chamar a atenção dos turistas.

Não sei se foi mesmo para zelar pela minha segurança (e pelo emprego dele) que decidiu acalmar os meus ímpetos exploradores e me impediu de avançar pela floresta dentro, tentando amedrontar-me com aquela história digna de Pantanal.

Mas para uma amante da vida selvagem como eu, aquele guia escolheu a história certa. Aquelas boas farão sempre parte do meu imaginário sobre a Tijuca e do meu fascínio por uma cidade que é amada pelo povo, que inventa (?) histórias sedutoras e promessas de aventura com o único resultado de a tornar ainda mais bela.

Buraco tapado por Citadina às 14:25
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12 comentários:
De Andarilha Estelar a 11 de Julho de 2008 às 21:12
Azinhaga,
Sou carioca da gema (da gema quer dizer que alem de ser carioca os pais também o são). E gostei muito de suas referências a minha cidade, este nosso Rio de Janeiro tão lindo e também tão negligenciado pelas autoridades e seu povo. Porem numa coisa você tem razão, nós, de fato(ou como vocês dizem facto), somos alem de orgulhosos zelosos com nossa beleza natural.
O Rio de Janeiro é tal qual uma mulher, sensual, matreira, cheia de manhas, de cadência malandra e sujeita a mistérios, como fica deveras bem! E que gosta de caricias, afagos e por que não cuidados?
Bom, mas você fala da Floresta da Tujuca. Sim é considerada a maior floresta urbana do mundo(mas a gente também tem mania de tudo ser melhor ou maior do mundo) mas é mesmo.
São cerca de 3.200 hectares. Isto bem no meião da maravihosa cidade!
Mas nem sempre foi assim. Na verdade esta floresta foi detonada. esta devastação incia-se com a expansão da cidade com a chegada da família Real ao Brasil. Esta destruição foi para plantio, e muito de suas madeiras eram usadas, para lenha e carvão. Com as plantações de café ai é que o bicho pegou! Conclusão: as nascentes secaram e a cidade ficou na eminência de ficar sem nadica de água.
Porem, um dos maiores estadistas que meu país já teve: D.Pedro II, num esforço estupendo para a época a reflorestou. Inteiramente!
Plantando em 13 anos 100 mil mudas!E mais outras em anos posteriores com a introdução de mais 30 mil mudas.O replantio foi feito com espécies, em sua maioria, nativas do Ecossistema da Mata Atlântica.
Em sua gestão, com total apoio do governo os administradores da Floresta da Tijuca realizaram um lindo trabalho de transformação da floresta em área de lazer, um parque para uso público, inserindo espécies exóticas, criando pontes,fontes, lagos e locais de lazer com auxílio do paisagista francês Augusto Glaziou.
Então, como você mesma verificou, sim, temos este orgulho bacana! Primeiro por ter tido um monarca desta estirpe, que por sinal fez muito mais, além de reconstruir e devolver à natureza sua beleza tão exuberante!
Mas não seria justo dar todo o crédito para nosso Pedro II, também outros amantes da beleza deram sua contribuição, como nosso maravilhoso paisagista Roberto Burle Marx.
Fico por aqui, senão este comentário vira post!
Com o orgulho de uma carioca que alem de praieira ama uma boa cachoeira(elas tem aos montes na Floresta da Tijuca)!
Beijos com gratidão

De Citadina a 14 de Julho de 2008 às 13:12
Andarilha,
Carioca da Gema? Conheço o bar dançante com música ao vivo lá no Centro-Lapa. :-) Muito divertido! Saudades, tenho de voltar, sei que vai fazer as delícias da Cosmo.
Por falar em beleza natural, ecologia e tudo isso, acabei ontem de ler um certo livro chamado "Entradas e Bandeiras", conhece? :-)
Gostei muito, é de um homem corajoso e sem macaquinhos na cabeça (pergunte à Duca o que isso quer dizer).
Até fui ver onde fica Rio Maracujá, e esse sim, deve ter uma população considerável de boas, não?...
Quanto à floresta da Tijuca, é, de facto, digna de todos os superlativos (os inventados e os verdadeiros). É uma maravilha natural, mesmo já não sendo a original.
Sabia da reflorestação, por entre boas e macacos parece que também dão alguma informação histórica fidedigna aos turistas... ;)
D. Pedro II foi apenas humano ao se ter apaixonado pelo Rio e pela floresta, qualquer humano sensível se apaixona, mas felizmente foi um humano com o poder bastante para devolver a "essa mulher Maravilhosa" os seus pulmões e o seu coração, no fundo.
Anyway, estar dentro da floresta é uma experiência zen, o verdadeiro yin e yang, um voltar às origens , uma interiorização da insignificância das nossas vidinhas
perante a imensidão e o poder daquela massa viva, o tigre e o dragão invertendo papéis constantemente, nós e a floresta, a floresta e nós próprios.
Para mim o contacto com a Natureza é das experiências mais marcantes que se podem ter. Seja no mar, seja na montanha, seja na selva, ou na cratera de um vulcão.
Mais uma razão para amar o Rio, certo? :-)
Beijo grande!
De Carioca Praieira a 14 de Julho de 2008 às 13:59
Citadina, querida amiga,
A Lapa é maravilhosa. Suas histórias tanto culturais quanto boêmias são fabulosas. Gosto da Lapa, sinto-me em casa e acolhida. Tenho um espírito ancestral muito boêmio. Ui a Lapa! Conhece ou já ouviu falar de Madame Satã? O ícone da Lapa, da malandragem e um legítimo representante da rebeldia homossexual e social!
Bom querida, sim, conheço o livro e o autor. conheci Gabeira , um intelectual na luta contra a ditadura. E dos bons! Fez a diferença!
Quanto o Rio Maracujá, é um afluente do rio das Velhas e este do S.Francisco . Ahhh querida, viajar pelo "Velho Chico"(como carinhosamente chamamos o Rio São Francisco) é uma experiência inesquecível. Ele corta Minas Gerais e chega ao nordeste de forma tão garbosa e dadivosa!
Próximo ao Maracujá temos Ouro Preto. Chegou até lá? É um patrimônio da Humanidade!
Bom fico por aqui senão o comentário ao comentário vira outro post . rs rs rs rs . Eu adoro meu lindo Brasil. Com suas contradições e belezas!
De Citadina a 14 de Julho de 2008 às 15:15
Infelizmente não conheço nem Ouro Preto nem Madame Satã. Sabe, acho sempre uma impertinência e uma idiotice um estrageiro, só porque foi ao Brasil, dizer - e aqui em Portugal ouve-se muito - : "Eu conheço o Brasil." Conhecem uma pinóia! É como dizer "Eu conheço a Europa." Isso diz alguma coisa, faz algum sentido? Não, claro. Só porque se esteve em 3 ou 4 lugares...
Quem me dera, de facto, conhecer o Brasil! Pelas leves - mas maravilhadas - impressões que tirei nas visitas ao Rio, a Natal e arredores, a Recife e arredores, incluindo Olinda, fico com a certeza de que adoraria! Mas sinto, no que respeita a Brasil, que ainda nem raspei a superfície, quase nem toquei.
É muita terra, muito rio, muito mar, muito povo, muita música, muito poema, para se abarcar de uma penada.
Mas não desisto, claro. Enquanto eu viver... E conto, agora, com a sua ajuda. Em troca, prometo a ajuda recíproca aqui em Portugal, que também tem os seus encantos naturais. ;)
De Carioca Praieira a 14 de Julho de 2008 às 15:58
Citadina,
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Citadina, <BR class=incorrect name="incorrect" <a>Uau</A> ! Esta carioca praieira , que às vezes andarilha pelas estrelas, adoraria chegar neste Portugal, nesta Lisboa que guarda minha amada. <BR>E sentir-me-ia deveras honrada em contar com sua ajuda para descortinar as belezas históricas e a linda natureza deste, já amado, país, que sei por fotografias e descrições de minha amada. <BR>Mas há um recanto que me é, particularmente, intrigante e adoraria conhecer. No monte, uma rede "importada" de Olinda, recolhida entre duas frondosas árvores e que eu, uma real descendente de Macunaíma adoraria me embalar! <BR>A propósito, o nome Olinda é uma "corruptela" de uma exclamação de um português , que deslumbrado com a visão da terra disse: <BR>Oh! Linda!
De Citadina a 14 de Julho de 2008 às 16:41
Resposta à questão da rede no seu e-mail. Espero que goste.

No que respeita a Olinda, sabia da corruptela. Começo a pensar que até sei umas coisas sobre o Brasil...
Lisboa está à sua espera, e enquanto espera, mostra-se aí por essa janela, que é o cabeçalho deste blog, uma foto tirada por mim que intitulei "Lisboa vista do castelo".
De Carioca Praieira a 14 de Julho de 2008 às 17:13
Citadina
Ui! A rede estava linda! Adoraria ali estar! Quanto a foto de Lisboa vista do Castelo, é bela e impactante! Já havia nela reparado.Fico a desejar cada vez mais esta Lisboa!
De Andarilha Estelar a 11 de Julho de 2008 às 21:45
Voltei, preciso se fez após falar com minha linda mulher ao telefone. Falei, falei, falei e o "causo" da "boa" que depois fiquei sabendo tratar-se da cobra conhecida entre nós como Sucuri , não comentei. Hummm então vamos lá. Nas florestas tropicais, próximas ao mar é comum encontrar-se Jibóia. Uma espécie que chega a 3 metros, mas que só come ratos. Esta espécie é nativa! Jamais teria um macaco como refeição! Os macacos são refeições prediletas das onças pintadas. Que esta, sim, tem na Floresta da Tijuca , apesar de estarem quase extintas.
Então é isto, ninguém soltou nenhum animal na Floresta. Até porque as avantajadas do pantanal não pintam por aqui e o que de fato existe é muito mito sobre as danadas!
De Citadina a 14 de Julho de 2008 às 13:21
Então, fazendo jus ao ditado português "Quem conta um conto acrescenta um ponto", quem sabe se não foi mesmo isso que aconteceu com esse guia tão simpático com quem tive o prazer de dar uns passeios pela Tijuca?
Se calhar foi isso, ele terá acrescentado não um ponto, mas sim dois ou três metros à cobra e esta se transformou de jibóia em sucuri. :-)
Mas agora você diz-me que há onça pintada na Tijuca?! Está vendo?! O que é isso que vocês têm de deixar qualquer pobre europeu maravilhado com essa cidade só à custa uma frase?! (Pergunte à Duca sobre o meu absoluto fascínio por felídeos...)
Mais um beijo!
De Carioca Praieira a 14 de Julho de 2008 às 14:07
Citadina...
Deve-se a exuberância e ao exotismo de uma natureza, incrivelmente, generosa. Querida, quando vocês estiverem por aqui, me darão o prazer de acompanhá-las por uns lugares encantadores? Hummm você imagina com que orgulho o faria?
Beijos, já de agora aguardando!
De Citadina a 14 de Julho de 2008 às 15:20
Só se onde nós formos tiver onça pintada! (Brinco).
Claro que sim e o prazer será todo nosso. Andamos a tentar desesperadamente ganhar o Euromilhões. Deve estar quase! E quando fôr, passaremos aí 6 meses, no mínimo! Vai fazendo a mala, ok?
De Carioca Praieira a 14 de Julho de 2008 às 16:03
Uops! Onça pintada? Ui!
Portuguesas sempre desafiando Brasileiras! rs rs rs rs
Tô dentro! Sou mais mochileira que alguem de malas! rs rs rs rs.
Já preparo nosso roteiro!

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