Sexta-feira, 29 de Agosto de 2008

A guerra na Geórgia explicada em pipelines

Participei em 1998/99 num consórcio que ganhou o projecto do TACIS da UE do programa INNOGATE "Estudos de viabilidade de pipelines de petróleo e gás através do Mar Cáspio". Das minhas funções fazia parte a recolha de todos os dados relativos aos pipelines de exportação de petróleo e gás existentes e projectados nas regiões do Transcáucaso, Cáspio e Ásia Central, bem como a de engenheira de ligação com todas as companhias de petróleo e gás a operar naquelas regiões e com as instituições privadas e governamentais envolvidas.

 

Examinámos todos os projectos existentes e projectados para aquelas regiões e muitos outros de regiões conexas, bem como os estudos de viabilidade respectivos. Alguns dos que na altura estavam apenas em projecto estão já hoje construídos e a funcionar, outros quase concluídos e ainda outros permanecem apenas no papel.

 

Uma coisa é certa: as rotas do petróleo e gás são rotas de guerra e conflitos. O meu objectivo é, pois, explicar em alguns posts a principal razão de ser desta guerra na Geórgia,  precisamente através dos pipelines que existem na zona do Cáucaso e noutras regiões vizinhas.

 

Neste primeiro post falarei de alguns dos mais importantes pipelines, nomeadamente dos que atravessam a Geórgia e que fazem parte de linhas mais vastas de exportação de petróleo e gás.

 

  

Fonte: Wikipédia

 

 Pipeline Baku-Tbilissi-Cehyan (BTC)

O pipeline Baku-Tbilissi-Cehyan, também conhecido como BTC (a verde na imagem), é um pipeline de petróleo que vai do campo petrolífero Azeri-Chirag-Guneshli no Azerbeijão, perto de Baku, capital do Azerbeijão, até ao Mar Mediterrâneo. Dos 1.768 Kms que tem de extenção, 443 Km estão no Azerbeijão, 249 Km estão na Geórgia e 1.076 Km na Turquia. Liga Baku, Tbilissi, capital da Geórgia, e Cehyan, um porto na costa sudeste da Turquia, daí o seu nome. É o segundo maior pipeline do mundo depois do pipeline russo Druzhba. O primeiro petróleo que foi bombado no extremo de Baku em 10 de Maio de 2005, atingiu Cehyan em 28 de Maio de 2006.

Paralelamente a este pipeline BTC, correm o South Caucasus Gas Pipeline desde o Sangachal terminal no Azerbeijão até Erzurum na Turquia. Entre Sariz e Cehyan, o Samsun-Cehyan pipeline será instalado ao longo do mesmo corredor.


South Caucasus Pipeline (Baku-Tbilissi-Erzurum)

O pipeline South Caucasus (a castanho na imagem), também conhecido por Baku-Tbilisi-Erzurum Pipeline, PTE pipeline or Shah-Deniz Pipeline, é um pipeline de gás natural destinado a transportar gás natural desde o campo de gás Shah Deniz no sector Azeri do Mar Cáspio até Erzurum na Turquia.

O principal objectivo deste pipeline é o de fornecer a Turquia e a Geórgia. Como um país de trânsito, a Geórgia tem o direito a ficar com 5% do volume anual de gás que circule no pipeline como tarifa e pode ainda comprar mais uns 0,5 bilhões de metros cúbicos de gás por ano a um preço de desconto. Numa perspectiva de longo prazo, o South Caucasus Pipeline fornecerá a Europa com o gás natural do Cáspio através dos pipelines Nabucco, Turquia-Grécia e Grécia-Itália.

 

Nabucco pipeline (planeado)

O pipeline Nabucco é um pipeline de gás natural planeado que fará o transporte de gás natural da Turquia à Áustria, através da Bulgária, Roménia e Hungria (em castanho a tracejado na imagem). Estender-se-á desde Erzurum na Turquia até Baumgarten an der March, um enorme centro gasífero da Áustria.

Este pipeline é uma alternativa aos métodos actuais de importação de gás natural sómente através da Rússia, que tornam a Europa dependente e insegura relativamente às práticas da Rússia. O projecto é apoiado pela União Europeia e pelos Estados Unidos. O Projecto Nabucco está incluído no programa da Rede Trans-Europeia de Energia da EU e já foi efectuado um estudo de viabilidade para o pipeline Nabucco através de uma doação da EU.

 

Samsun Ceyhan Pipeline (planeado)

O Samsun Ceyhan Pipeline, também conhecido por SCP ou Trans-Anatolian Pipeline Pipeline, é um pipeline de petróleo planeado entre o terminal do Mar Negro em Samsun e o terminal de petróleo no Mediterrâneo em Cehyam na Turquia. O objectivo deste projecto é providenciar uma rota alternativa ao petróleo russo e kazaque e aliviar o peso do tráfico no estreito de Bósforo e Dardanelos.

Terá um comprimento de 555 Km e uma capacidade de 1,5 milhões de barris por dia com uma capacidade inicial de 1 milhão de barris por dia. A começar em Sariz, o pipeline seguirá o corredor do pipeline Baku-Tbilissi-Cehyan.

 

Trans-Caspian Gas Pipeline (planeado)

O Trans-Caspian Gas Pipeline é um pipeline submarino entre Turkmenbatsy no Turquemenistão e Baku no Azerbeijão. Existem algumas propostas no sentido de incluir também uma ligação ao campo petrolífero de Tengiz no Kazaquistão e Turkmenbatsy. Em Baku será ligado ao South Caucasus Pipeline (Baku-Tbilisi-Erzurum pipeline) e através deste ligar-se-á ao planeado Nabucco Pipeline (Turquia-Bulgária-Roménia-Hungria-Áustria pipeline).

O propósito deste projecto do Trans-Caspian Gas Pipeline é o de transportar o gás natural do Kazaquistão e Turquemenistão para a Europa Central, circunvalando quer a Rússia, quer o Irão. No entanto todos os ambientalistas e a própria Rússia são de opinião que qualquer pipeline de petrólero ou gás que possa passar pelo fundo do Mar Cáspio é ambientalmente inaceitável.


Western Route Export Pipeline (WREP)

O Baku-Supsa Pipeline, também conhecido como Western Route Export Pipeline e Western Early Oil Pipeline, tem 830 Km de comprimento e estende-se desde o terminal Sangachal perto de Baku, de onde transporta o petróleo do campo petrolífero de Azeri-Chirag-Guneshli, e o terminal de Supsa na Geórgia. É operado pela BP (British Petroleum).

 

Baku-Novorossiysk Pipeline

O Baku-Novorossiysk Pipeline, também conhecido como Northern Route Export Pipeline e Northern Early Oil Pipeline é um pipeline com 830 Km de extensão, que se estende do terminal Sangachal perto de Baku até ao terminal de Novorossiysk na costa do Mar Negro da Rússia. É operado no Azerbeijão pela State Oil Company of Azerbaijan Republic (SOCAR) e na Rússia pela Transneft.

 

Em maior detalhe poderão ver abaixo os troços do BTC e do Baku-Supsa (WREP) pipelines que atravessam a Geórgia. Neste mapa vê-se bem a localização da Abecásia e da Ossétia do Sul e das suas capitais, respectivamente Sokhumi e Tskhinvali.

 

 Fonte: Wikipédia

 

Apesar de a Geórgia não produzir petróleo, este país é um país chave no trânsito das exportações de petróleo e gás do Azerbeijão para os mercados do Oeste. A Europa é assim um dos principais clientes do petróleo que é bombado através dos pipelines do sul do Cáucaso numa aposta feita para diversificar a sua dependência do fornecimento russo.

 

Há analistas que pensam que este conflito foi orquestrado pela Rússia de forma a interromper o fornecimento através do BTC e a encaminhar as exportações de petróleo do Azerbeijão através dos pipelines russos, forçando a Europa a uma maior dependência dos fornecimentos deste país.

 

A região do Cáucaso é também um importante corredor de ligação dos riquíssimos países petrolíferos da Ásia Central à Europa.

 

O aumento de instabilidade nesta região pode contribuir para um recuo do projecto Nabucco, o pipeline de gás projectado para trazer o gás do Cáspio e da Ásia Central para a Europa e garantir assim a sua segurança de fornecimento.

 

A guerra na Geórgia pode vir a confirmar as dúvidas existentes sobre o facto de a Geórgia ser um país fidedigno como país de trânsito de petróleo e gás, o que se pode vir a traduzir não só em relutância política relativamente a projectos de óleo e gás internacionais destinados a fazer o by-pass da Rússia, tais como o projecto Nabucco e o pipeline Odessa-Brody, mas também numa diminuição da confiança dos investidores e, eventualmente, num aumento dos preços do petróleo.

 

Por outro lado, no que diz respeito aos EUA, a Geórgia é um elemento chave no “corredor de energia do sul” que estes apoiam desde os anos 90, e que liga a região do Mar Cáspio e Ásia Central aos mercados mundiais fazendo o by-pass da Rússia e conduzindo ao isolamento do Irão.

 

Segundo alguns analistas, este conflito na Geórgia expôs a fragilidade dos pipelines do Transcáucaso e poderá obrigar o Oeste, se perder a Geórgia, a superar a sua relutância em virar-se, como alternativa, para as rotas de exportação do Irão.

 

A outra alternativa ao Irão, para o Oeste, seria a de fazer saír o petróleo e gás do Cáucaso e da Ásia Central através dos pipelines russos ou chineses.

 

Esta guerra pode interromper o fornecimento de cerca de 1.6 milhões de equivalentes de barris de petróleo por dia da região do Mar Cáspio aos mercados mundiais.

 

Eis o verdadeiro móbil da guerra.

 

Buraco tapado por Cosmopolita às 18:38
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8 comentários:
De tangas a 31 de Agosto de 2008 às 13:14
pois é... a guerra é uma grande instituição financeira.
De Cosmopolita a 4 de Setembro de 2008 às 12:21
Pois é Tangas. O Congresso dos EUA aprovaram para 2009 um orçamento suplementar de mais de 600 mil milhões de dólares só para as guerras do Iraque e Afeganistão e para acções anti-terroristas.

O Pentágono propôs para 2009 um orçamento de $ 515,4 bilhões, que fará que as despesas militares anuais, depois de ajustadas segundo a inflação, atingirão o seu nível mais alto desde a 2ª Guerra Mundial.

Mas neste post trata-se, a par disso e também por causa disso, da ocupação de posições geoestratégicas relativamente às fontes de energia do planeta.
De tangas a 4 de Setembro de 2008 às 13:54
o que a gente faria com um orçamento desses...

mas o mais preocupante ainda é saber que as grandes petrolíferas andaram para aí a comprar todas as patentes das energias alternativas que foram aparecendo. ou seja, se der para o torto, não faz mal, que continuamos nas mãos dos mesmos :(
De a metade a 5 de Setembro de 2008 às 13:43
Cara Cosmo...

O titulo do teu post é tão interessante que me vieram a cabeça outros:
"O caos angolano explicado em diamantes e petroleo"
"A guerra XYZ explicada em droga"
"As N guerras explicadas em interesses económicos".
Fica-se sempre com a ideia de "A verdade escondida" ser sempre mais mesquinha do que o que se supõe.
A velha descrença na imprensa. A noção que tudo nos é filtrado numa propaganda que protege "elevados interesses" e que há vozes que são "silenciadas". Parece-me que é como uma Mafia Global.
Há que despistar ao máximo a manada com fait-divers. Nunca é ouvido quem realmente sabe. Isso não lhes interessa.
Parece-me que apesar de tudo o Babel que é a internet. apesar de existir "demasiada informação" ao ponto de ser muito dificil separar o trigo do joio é uma derradeira forma de liberdade (de informação)
De Cosmopolita a 8 de Setembro de 2008 às 10:41
Pois é, meu caro amigo. Para mim tudo se explica, não em termos de "ajuda humanitária" ou "defesa da democracia", mas sim de interesses político-económicos, não tenho ilusões sobre isso.

E sim, não tenhas dúvidas de que tudo nos é filtrado ou dado a comer da forma que (lhes) interessa. Mas é sempre possível, na internet, nos jornais, na televisão, nas conferências internacionais, separar o trigo do joio e perceber quais são os verdadeiros interesses em jogo.

O problema é que às "manadas", como tu dizes, não lhes interessa a verdade, estão demasiado ocupadas a viver o seu dia-a-dia para sobreviver, ou são demasiado incultas, ou já perderam toda e qualquer esperança de poderem com a sua intervenção, mudar seja o que for...
De -pirata-vermelho' a 7 de Setembro de 2008 às 23:40
E se fosse explicada na Polónia e seguidamente,
na Ucrania, mesmo pagando o preço adicional
de uma certa 'concertação' europeia?
De Cosmopolita a 8 de Setembro de 2008 às 10:56
Meu caro pirata, que surpresa agradável vê-lo de novo por aqui!

Poder-lhe-ia seguramente explicar em termos similares a Polónia e a Ucrânia, países que conheço demasiado bem, até por ter vivido na Ucrânia muitos anos. E indo até um passado que remonta a uma altura que antecede a 2ª Guerra Mundial.

Mas a verdade é que não tenho tempo. A análise é extensa e complexa e penso que pouca gente a leria.

Mas terei todo o prazer, como disse neste post, em explicar assim que tiver tempo, em termos de pipelines, o que se passa com as outras rotas alternativas de exportação de petróleo e gás e o porquê da importância do Irão nesta história toda.

Sugiro-lhe entretanto que vá a um atlas e que veja as localizações destes países todos, a sua posição relativa, que consulte a produção de petróleo e gás de cada um deles, que veja os seus acessos marítimos, que pense em termos de zonas de influência geo-estratégica das grandes potências. Penso que ficará com um quadro esclarecedor.

Volte sempre!
De -pirata-vermelh- a 8 de Setembro de 2008 às 13:39
No need!
As suas análises e estas sugestões são bemclaras e pertinentes.
Também vi que viu o que destaquei e quem me dera, acerca dessas 'outras estratégias' poder ouvi-la.

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