Sábado, 16 de Outubro de 2010

Chegada

Ontem à chegada, fui acolhida pela deliciosa calidez da noite africana e pelo grupo de amigos com cartazes de boas vindas e abraços apertados. Como é diferente este continente e como me está entranhado na pele de uma forma que é incompreensível para tantos europeus...

Buraco tapado por Cosmopolita às 20:37
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Sexta-feira, 29 de Maio de 2009

Notas de viagem (X) - a bordo do voo TP262, sobre o norte de África, no regresso

Falta-me o deserto. Nunca estive num deserto. Já estive em sítios ermos, naturalmente, mas nunca num deserto a sério. Também nunca tinha sobrevoado África durante o dia, tanto quanto me posso lembrar, e agora que o estou a fazer, perscrutando o Sahara, apercebo-me quão impressionante é um sítio destes, de uma tal extensão que a vista não abrange mesmo a dez quilómetros do chão.

Um deserto é uma maravilha natural tão extraordinária quanto a selva amazónica, a grande barreira de coral na Austrália e os Himalaias. Um deserto é espectacular à sua maneira.

Sempre me fascinou isto de ver o mundo de cima, sempre me desafiou e divertiu tentar identificar posições através das características geográficas. Quem me dera que os pilotos me convidassem para viajar no cockpit e me ajudassem a identificar as cidades e os desertos...

 

Não há nenhuma evidência de vida. Nenhuma. Voamos há horas sobre o deserto e não há nada que possa fazer supor que alguma forma de vida exista lá em baixo. Portanto o que me puxa para baixo é saber que isso é uma ilusão.

Faltam sensivelmente duas horas e quarenta minutos para aterrar em Lisboa, o que nos coloca sobre a Argélia. "Um ponto preto quebra-me a solidão do olhar." Olhando com mais atenção, vários pontos, em trilhos rochosos. Serão sombras? Miragens?

Voamos há horas sobre um deserto que só sabermos ter limites porque confiamos na cartografia que toda a vida nos impingiram. De outra forma, poderíamos perfeitamente pensar que tínhamos chegado ao infinito. Isto é o infinito.

 

(Imagem tirada daqui)

Buraco tapado por Citadina às 11:01
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Quinta-feira, 21 de Maio de 2009

Notas de viagem (III) - Kruger Park

Três dias no Kruger Park, África do Sul, onde à beira da estrada (chamemos-lhe assim) se vêem girafas mordiscando as copas das árvores, chitas passeando com lassidão, rinocerontes brancos encaracolando a cauda em sinal de desagrado pela nossa presença, leões observando-nos com interesse, babuínos catando-se, pitons africanas em busca da próxima refeição, águias imponentes sobrevoando a savana.

Por oposição a placards publicitários, sinalização de trânsito, lixo, postes de alta tensão, torres de telecomunicações, sirenes, excesso de gases carbónicos.

Um variação inesquecível.

Buraco tapado por Citadina às 11:17
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Quarta-feira, 20 de Maio de 2009

Notas de viagem (I)

2 de Maio de 2009, 6:15h, vôo TP261

Aterrámos em Maputo. O sol nasce vermelho, um vermelho africano, levantando-se do Índico. Durante o táxi há silêncio na cabine, um silêncio matinal. Não há um cinto que se desaperte, uma voz que se levante. Apenas um estupor generalizado resultante de dez longas horas nocturnas de desconforto e cansaço.

Finalmente o avião imobiliza-se, os motores adormecem e aí sim, instala-se a azáfama dentro e à volta dele.

Olho a placa ansiosa, a terra firme do outro lado, o chão do oposto hemisfério, onde me aguarda a mulher da minha vida, provavelmente observando algures de um ponto escondido o enorme A340 acabado de chegar. Quero sair daqui.

Acoplam-se as escadas, abrem-se as portas.

Vou descer.

Buraco tapado por Citadina às 11:24
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Terça-feira, 19 de Maio de 2009

É preciso coragem para voltar

Na minha ausência a blogosfera continuou produzindo-se a bom ritmo, na costumeira existência virtual de que uns vivem e outros nem sabem que existe.

Eu estive numa parte do planeta onde ela quase não tem expressão. Digamos que a  própria parte do planeta também não tem lá muita expressão, votada aos confins austrais de um mundo subdesenvolvido.

Para mim a blogosfera não existiu de todo durante os últimos vinte dias, como alguns (poucos, mas bons) aficionados deste blog terão notado, ou apenas surgiu esporadicamente como a vaga memória de uma vivência longínqua.

A  ela regressada, claro que não vou ler os cerca de dois mil posts que o Google Reader acusa nas minhas subscrições. Que se lixe o que se passou, quero lá saber. Lerei apenas os blogs dos afectos, dos amigos, que são mais raros e se revestem de uma importância intemporal.

Se já é preciso coragem para voltar a este ritmo frenético e solitário, imagine-se se eu ainda tivesse preocupações de recuperar o que não vivi.

Vou antes recomeçar os hábitos da escrita bloguística de forma nostálgica e vagarosa, porque preguiça é o que sinto, publicando algumas notas de viagem e, com sorte, um punhado de fotografias. Espero que a Cosmo me ajude nisto. Mas só começo amanhã, nem me vou dar ao trabalho de explicar porquê, o leitor que me perdoe, se ainda estiver desse lado.

Buraco tapado por Citadina às 12:39
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Segunda-feira, 2 de Março de 2009

Mês novo, solidão nova

Inicia-se uma nova fase na vida das autoras deste blog. A Cosmopolita está agora em Moçambique, onde irá permanecer até ao fim de Maio. Depois de um ano e meio profissionalmente difícil, vai-se restaurando a estabilidade na nossa família, muito à custa deste sacrifício dela, de mais uma vez se expatriar.

Eu, por enquanto e até me habituar, na medida do possível, à ausência dela, sinto-me frágil.

 

 

Buraco tapado por Citadina às 12:34
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Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2009

Passagem

O blog No Fim do Mundo... está em modo "over and out".

A sua autora, outra portuguesa em périplo contínuo, agora na Tailândia, passa a inteirar-nos das suas aventuras através do Travel and Notes e das suas crónicas de viagem.

Vale a pena acompanhá-la regularmente.

Buraco tapado por Citadina às 12:56
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Quinta-feira, 4 de Setembro de 2008

Pelas ruas do mundo #3

"Pelas ruas do mundo" é uma série que comecei no ínicio do blog com o objectivo de publicar fotos curiosas captadas em viagem.

Nunca mais lhe dei continuidade, mas hoje é um dia tão bom como outro qualquer para o fazer.

 

Há um artista informal nas Terras do Grande Lago que faz cata-ventos / rosas-dos-ventos à base de sucata, brinquedos em desuso e outras velharias. Este é o resultado (clique na imagem para aumentar):

 


Autoria da foto: Cosmopolita

Póvoa de S. Miguel, Moura, Agosto 2008

Buraco tapado por Citadina às 15:35
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Quinta-feira, 10 de Julho de 2008

As boas da Tijuca

Há uns anos dei alguns passeios pelo Parque Natural da Tijuca, no Rio de Janeiro. Dizem que a Tijuca é a maior floresta urbana do mundo e eu não me admirava nada se fosse mesmo, a avaliar pelo tamanho da mancha verde que se vê na imagem de satélite.

(Clique na imagem para aumentar)

Esses passeios são visitas guiadas que os turistas contratam, e há uns programas melhores e outros piores, mas quase todos incluem uma caminhada por um ou mais trilhos da floresta. Eu fiz vários, devido a essas armadilhas em que caem os turistas acidentais. Esta resume-se ao seguinte: qualquer que seja o passeio turístico que se contrate no Rio, ele inclui sempre uma visita à Floresta da Tijuca. Se é para ir à Rocinha, o passeio inclui a floresta. Se é para ir fazer um vôo de asa Delta, o passeio inclui a floresta. Se é para ir ao centro histórico, não sei como mas eles arranjam maneira de incluir a floresta.

As empresas que organizam os roteiros vivem na esperança de que ninguém se importe e, de facto, é mais ou menos isso que acaba por acontecer. Mesmo aos turistas que já visitaram a Tijuca basta dizer "Não quero fazer esse trilho porque já o fiz, quero fazer outro." e como há tantos e tantos locais magníficos a explorar, é fácil para os guias redesenharem os percursos.

E, admitamos, a Floresta da Tijuca é dos lugares mais interessantes que se pode visitar naquela cidade, constituindo assim um enriquecimento certo de qualquer roteiro.

Num dos tais passeios eu era a única que falava português de entre um grupo de turistas e, por isso, o guia escolheu-me como interlocutora privilegiada, até porque o meu inglês era muito melhor que o dele e eu ia-o ajudando nas traduções. No meio das explicações sobre a fauna e a flora, referiu que os responsáveis do Parque tinham introduzido duas boas da Amazónia na floresta para ajudarem a controlar a população de macacos.

Não sei se é verdade ou não, mas faz parte desse espírito carioca fascinar o turista com factos radicais sobre a natureza exuberante que constitui o âmago da Cidade Maravilhosa. Isso serve também para desviar a atenção dos problemas sociais da cidade, mas diga-se, em abono da verdade, que há uma cultura notória de defesa do ambiente, da qual é natural que os cidadãos locais se orgulhem e para a qual gostem de chamar a atenção dos turistas.

Não sei se foi mesmo para zelar pela minha segurança (e pelo emprego dele) que decidiu acalmar os meus ímpetos exploradores e me impediu de avançar pela floresta dentro, tentando amedrontar-me com aquela história digna de Pantanal.

Mas para uma amante da vida selvagem como eu, aquele guia escolheu a história certa. Aquelas boas farão sempre parte do meu imaginário sobre a Tijuca e do meu fascínio por uma cidade que é amada pelo povo, que inventa (?) histórias sedutoras e promessas de aventura com o único resultado de a tornar ainda mais bela.

Buraco tapado por Citadina às 14:25
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Segunda-feira, 7 de Abril de 2008

Hotéis com atitude

Português lança rede hoteleira para homossexuais.


(via Fugas)

Buraco tapado por Citadina às 17:09
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Terça-feira, 25 de Março de 2008

Alguém anda a viver o meu sonho


(foto roubada aqui)

Miguel Sacramento e Clara Faria Piçarra estão a dar a volta ao mundo em doze meses, nadando com focas na Nova Zelândia, percorrendo os glaciares patagónicos, vivendo a passagem do ano chinês em Pequim, banhando-se nas praias das ilhas polinésias, navegando até à Ilha da Páscoa, lendo o diário do fim do mundo in loco, escrevendo a História à medida que ela acontece no Tibete.
Registam esta viagem no blog Histórias do Mundo. Melhor que acompanhar este périplo através dele, só se for fazê-lo eu.

Buraco tapado por Citadina às 15:05
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Quarta-feira, 19 de Março de 2008

Da ausência se constata...

Que Amesterdão não é em nada mais bonita que Lisboa.

Que o significado do meu nome próprio é "estrangeira" (faz todo o sentido, onde quer que esteja).

Que consigo viver sem chegar perto do blog (mas confesso que tive muitas saudades).

Buraco tapado por Citadina às 16:59
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Terça-feira, 20 de Novembro de 2007

A minha fantasia urbano-depressiva sobre Tóquio

Tóquio é a cidade ideal para se estar deprimid@. Pressinto isto desde o Lost in Translation, essa obra cinematográfica discreta, magistral e demonstração plena do tal ideal.
Em Londres e outras cidades cinzentas sente-se frio e outros desconfortos, mas também uma excitação cosmopolita que é antónima de depressão.
Em Tóquio não se percebe nada do que se lê, não se compreendem os discursos, a cultura, os gestos. Mergulha-se na desorientação total e na procura desesperada de uma pista de sentido que nos oriente para um conforto minimal.
Em Tóquio não se sente nada de positivo pela cidade, portanto não se tem pena de passar o dia todo encafuad@ num bom hotel.
Há espaço de sobra para a depressão, amplo, digno e com estilo. Há também motivos e argumentos para side effects como o escárnio, o choro, o desprezo, a auto-comiseração e a apatia.
E nem precisa de estar a chover. Aquele manto de poluição entre nós e o céu serve lindamente.
Alguém tem um bilhetinho de avião a mais?

Buraco tapado por Citadina às 17:40
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Terça-feira, 3 de Julho de 2007

Excertos da memória - 2 (3ª e última parte)

Era um dia chuvoso que intensificava os odores e tornava o ambiente triste e poético. Mesmo ao meio-dia, os candeeiros a óleo continuavam acesos, fazendo parca frente a um céu de chumbo que se sustinha ameaçador um pouco acima das nossas cabeças. Os planos passavam por ir dar uma volta pelas redondezas, mas o táxi faltou e o tempo estava tão agreste que resolvemos abrigar-nos um pouco no único café aberto, aliás, o único café existente, que era também pensão, restaurante, e provavelmente a desoras, resguardo para encontros íntimos nos quartos do primeiro andar, mas isto pode ser só uma provocação do meu imaginário.

No chão do café saltavam sapos nos cantos contra as paredes, buscando uma saída que teimava em não se lhes revelar. Desejei que os tirassem dali, que me metiam um asco incontrolável, embora não parecessem incomodar mais ninguém e até divertir muito a minha irmã, que os caçava à paulada com um cajado que tinha tirado não sei de onde.

Um homem magro, muito moreno e de faces chupadas, vestindo um capote cinzento com uma pele de coelho à volta do pescoço acenou-nos de uma mesa e o meu pai disse-nos que aquele era o António, dêem-lhe um beijinho, filhas, o António e a Margarida fazem filmes de cinema. As bocas abriram-se-nos ligeiramente quando os olhos estacaram nuns aparelhos espalhados pelo chão aos pés da mesa. Máquinas de filmar, cabos e tripés, coisas que só tínhamos visto na televisão. Aquilo aliás, era com o que se fazia a televisão.

Só muito mais tarde me apercebi quem eram o António Reis e a Margarida Cordeiro, que se cruzaram diariamente connosco durante aqueles dias na escada da casa de Bemposta, sorrindo, fazendo-nos festas nas cabeças como as faziam aos cães, ou ignorando-nos por completo, enquanto dirigiam as filmagens de “Ana”, considerado entre os 25 melhores filmes do último quarto do século XX.

Creio, aliás, que após esse encontro, não saímos mais das escadas, eu e a minha irmã, esse corredor fascinante, por onde passavam os actores, os técnicos e outros desconhecidos, subiam e desciam holofotes, se fumavam os cigarros da concentração e se discutiam cenografias, técnicas de som e planos artísticos.
Nessa película se entrevê esta casa de que vos falo, esta terra inóspita, e se é presenteado com a poesia visual da dupla Reis / Cordeiro, essa gente ilustre de um lirismo tão tocante quanto era profundo o seu amor a Trás-os-Montes.

Hoje, a feérica iluminação pública, os transportes, as auto-estradas e toda essa máquina que é o progresso terão alterado aquela paisagem para sempre e feito bem às populações antes entrincheiradas no isolamento, mas às minhas memórias devastá-las-iam, pelo que não quero, não vou, não volto. São minhas e gosto delas assim, enevoeiradas, húmidas, a cheirar a fumo de lareira antiga, com sapos a saltar-me aos pés, com terror dos cães prontos a atacar-me ao virar de cada esquina, cheias de fantasmas e medos e risos e fábulas. Passaram três vertiginosas décadas entretanto, anos que mudaram tudo, todas as perspectivas, todas as vivências. Mas dentro de mim, num canto recôndito, aquele mundo ainda existe.

    António Reis

    António Reis com Marguerite Duras

    Reis dirigindo as filmagens de "Ana"

(fotos roubadas aqui)
Buraco tapado por Citadina às 16:44
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Quinta-feira, 28 de Junho de 2007

Excertos da memória - 2 (continuação)

- Convinha passarmos numa farmácia.

- Porquê, de que é que precisas?

- As miúdas estão cheias de piolhos...

- ...

Foda-se, se isso se sabe lá em casa!

- Pois...

 

Esta foi a conversa entre o meu pai e o amigo, no tal Mercedes que iluminava a noite em que chegámos a Bemposta. Disto já não me lembrava, e foi o meu pai, o único dos dois que ainda é vivo, que agora mo recordou. Para um(a) miúdo(a) naquela época, ter piolhos ou não ter não era nada de extraordinário, à excepção do incómodo da coçadeira. Isto porque a vida das crianças era na rua enquanto os pais estavam a trabalhar e a rua era uma instituição, um mundo misturado, uma experiência, uma escola, um passeio de ricos com pobres das barracas e com as classes do meio, onde, no entanto, as posses relevantes de cada um eram practicamente as mesmas; calçado e roupa, melhor ou pior, uma bola aqui, uma bicicleta ali, mas acima de tudo, os dois brinquedos mais fantásticos que conheci: tempo e imaginação.

 

Em Bemposta acordámos na manhã seguinte, numa cama grande, os três, eu, a minha irmã e o meu pai, num quarto do andar de cima. Os sinais de luta para escapar ao banho mata-piolhos na madrugada anterior ainda eram evidentes. Estava tudo num pandemónio, as roupas de viagem espalhadas por toda a divisão, ainda húmidas, secando nas costas das cadeiras.

 

Não havia água canalizada nem luz eléctrica. A higiene pessoal fazia-se sobre bacias. Havia sim, pedras nas paredes, escuras e amontoadas camadas graníticas, aglomeradas, creio, pela mesma mistura de palha e esterco que cobria, lá fora, o chão. Cheiravam a merda. Tudo cheirava a merda. Eu cheirava a Quitoso, que vai dar ao mesmo.

 

Depois das apresentações à matriarca, que nos fez torradas numa lareira onde eu cabia em pé e nos ofereceu o leite mais nojentamente gordo que tive de ingerir em dias de vida, calçámos as galochas para sair. Sim. Galochas. Quem se lembra delas em apenas duas variantes ponha o dedo no ar. As minhas eram azuis escuras com uma grossa sola amarelo-torrado e as da minha irmã eram vermelhas com sola branca.

 

Assim que saí à rua, olhando para todos os lados menos para onde devia, senti uma coisa estrebuchar debaixo do pé. Pisei um sapo, que em parte se desfez numa viscosidade verde-clara. Era o que faltava para vomitar o leite ali mesmo, por cima das botas do meu pai, que começava a abeirar-se de um ataque de nervos.


(continua)


Buraco tapado por Citadina às 18:30
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Terça-feira, 19 de Junho de 2007

Excertos da memória - 2

Querido blogue,

Ainda na sequência do meu aniversário, ontem fui jantar a casa dos meus pais, que estavam por terras de Espanha na devida data.

Entre memórias de sabores de infância, odores e lugares, acabou por se resgatar do passado uma viagem que fizemos a Trás-os-Montes no início dos anos 80.

Só de pensar nisso invade-me um sorriso incontrolável próprio de quem contempla uma preciosidade que é única e sua.

Hoje tenho terror de voltar a essas paragens, decerto consumidas pelo alcatrão, onde antes só havia, por entre as casas, a terra sulcada pelos carros de bois, atapetados esses corredores por palha e merda que se espalhava aí, não sei por que lógica razão.

Essa terra não sei de que cor era, mas a atmosfera era escura, medieval, invernosa. Muito escura também era a noite em que chegámos, e juro que não me lembro de um breu assim, em que não distinguia a parede do edifício da estação de comboios a três ou quatro metros de mim, nem tão pouco os corpos do meu pai e da minha irmã, a que me uniam as duas mãos, como que num cordão de segurança.

A viagem tinha começado no Porto, provavelmente em Campanhã, e cinco ou seis horas depois, percorrida toda a linha do Douro num comboio puxado por uma automotora a gasolina, a que a cada paragem se abria o motor para deitar água no radiador, provocando um espectáculo quase pirotécnico, ou pelo menos a fumarada assim o anunciava, chegámos a Urrós, concelho de Bragança e literalmente o fim da linha.

No entanto não era esse o nosso destino final. Como que por magia, numa era em que nem telefones fixos estavam à disposição naqueles ermos esquecidos, quanto mais telemóveis, começámos, assim que os nossos olhos se adaptaram à escuridão, a ver surgir dois faróis na estrada, muito longe na noite, ainda nem se ouvia o barulho do motor, e depois mais perto, perto de nós, para nós, num timming perfeito, sabendo que três alminhas esperavam ali aquele transporte, àquela hora, num "truque" de sincronia perfeita a que hoje apetece bater palmas!

O nosso anfitrião chegou nesse Mercedes que nunca esqueceremos por ter sido a primeira limousine que vimos na vida, com três filas de assentos e provavelmente o único táxi da região.

O caminho era agora para a casa de Bemposta, a meros dois quilómetros da fronteira espanhola de Zamora. Essa era uma casa transmontana, robusta e rude, mas grandiosa no seu carisma, e por onde alguns ilustres passaram. Mas isso é outra (parte da) história.

(continua)
Buraco tapado por Citadina às 12:00
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Quarta-feira, 6 de Junho de 2007

Amanhã aqui, depois ali

Até dia 14!



Buraco tapado por Citadina às 12:36
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Terça-feira, 13 de Março de 2007

A Irmandade da Rosa Negra (continuação)

(cont.) Depois do lauto jantar no Albertino, rebolaram nas suas montadas pela encosta abaixo, sempre de olho no precipício, não fosse aquele engoli-las, e à quinquagésima oitava contracurva as seis e a cadela estavam finalmente de volta ao vale e repousaram mais uma vez à beira do rio.

    Rio Zêzere

   Poço do Inferno

   Covão da Ametade e Cântaro Magro

   Vale glaciar

   Lagoa Comprida

   Cova da Beira vista da Varanda dos Carqueijais.

Ao outro dia, no termo de uma noite redentora, ergueram-se bem mais tarde que o sol, mas com a mesma energia, para iniciar um caminho enviesado de regresso.
Passou-se primeiro pela branca vila de Manteigas, para alimentar o corpo e alguns o espírito.
Seguiu-se vagarosamente vale acima pela estrada torta, à vista de pascigos verdejantes cerrados por muros de pedra.
Ao cimo, virou-se à esquerda, para apanhar os ares das Penhas da Saúde com a Lagoa do Viriato a seus pés.
Continuou-se a descer na direcção da Covilhã, pasmando-se com a vista e o declive acentuado que as pernas dos ciclistas conquistam todos os verões, na etapa de montanha da Volta.
Na descida, entre a Pedra do Urso e o edifício fantasma do sanatório dos ferroviários, avistariam o desvio para o lugar que lhes deu o nome: Rosa Negra.
Um pouco mais abaixo, paragem na Varanda dos Carqueijais. Aí se deslumbraram de novo, e desta feita com demora, pela extensa Cova da Beira, a Covilhã no extremo norte e o Fundão lá ao sul, e para os lados do nascente, as silhuetas de Monsanto no cimo do promontório, de Belmonte e das Espanhas.
Porque o apetite chamou, ultrapassaram lestas a Covilhã, e retemperaram forças no restaurante Mário do Fundão, que lhes serviu as últimas especialidades locais, entre elas o arroz de carqueja, a truta recheada com presunto e o requeijão com doce de cereja da Cova da Beira.
E foi assim que regressaram às suas vidas, estrada fora pelo entardecer, com a alma cheia de gozo e o corpo de iguarias.
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Buraco tapado por Citadina às 21:34
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Domingo, 17 de Dezembro de 2006

Pelas ruas do mundo

Carro da polícia veneziano

Buraco tapado por Citadina às 12:55
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