Sexta-feira, 2 de Fevereiro de 2007

Série "Coitadinhos!" - 2

... dos portugueses! São eles próprios que o apregoam, que se lamentam em frente às câmaras de televisão, nas estações de rádio, em qualquer lado que tenha provável audiência.
Da lágrima quase imperceptível não fosse a tremedeira na voz, passando pelo chorinho de cabeça baixa, até ao uivo lancinante acompanhado por coreografia trágico-demente, temos tudo, todos os dias, na rua, nos transportes públicos, nas empresas, e até nas nossas casas.
É um vício. Mais que um vício, é uma atracção irresistível pelo lamento e pela autocomiseração. E realmente, não há como negar: os portugueses são vítimas. Mas vítimas uns dos outros.
Há o pequeno empresário que é vítima da crise. No entanto, não tem a mínima noção de qualidade de produto ou serviço, e portanto põe uma gaja mal-educada (mas barata) a atender os telefones lá do estaminé, que se não afugenta logo ali os potenciais clientes, conta então com a preciosa ajuda do “comercial” que combina ir a casa das pessoas fazer um orçamento e depois se esquece completamente de aparecer, deixando o ex-futuro-cliente plantado e furioso. Em resumo: o pequeno empresário nem sabe bem de que(m) é vítima.
Há o grande empresário que é vítima do sistema, do Governo (quando está na oposição) e da oposição (quando está com o Governo), da fraca produtividade dos trabalhadores, dos salários “demasiado altos” que tem de pagar, além dos “custos” com a segurança social e demais “regalias”.
Há o executivo, ou gestor público (consoante o ciclo político). Ás vezes é gestor público, outras vezes é alto executivo (quando a coisa corre muito mal, pode também vir a ser Presidente de Câmara ou, ainda mais desprestigiante, de um clube de futebol). É ele que negoceia contratos com cláusulas de rescisão que lhe dão direito a indemnizações equivalentes a 20 anos de “trabalho efectivamente prestado à empresa” se esta lhe quiser dar um chuto no traseiro após seis meses de contratação. Queixa-se de lhe chamarem injustamente corrupto e aldrabão.
Há o trabalhador por conta de outrem, que é vítima de tudo e mais alguma coisa, e que por isso passa anos a fazer sucessivas greves de zelo e a afundar-se na frustração da sua triste vida. Lixar de alguma forma o patrão, nem que seja a chegar constantemente dez minutos atrasado e sair constantemente um minuto mais cedo dá-lhe um gozo indizível. Queixa-se de não conseguir fazê-lo mais vezes.
Há o empresário em nome individual que assobia para o lado quando se fala de evasão fiscal, mas que chora, chora para mamar nas contribuições dos outros.
Há o grande capital, a banca, que se queixa porque não quer pagar impostos senão vai perder “competitividade”!!! (sim, é preciso ter lata, e no entanto...).
Há os doentes, os aleijados, os cegos, os surdos, os mudos, os reformados com pensão mínima e os desempregados que se queixam porque senão então é que vão mesmo desta para pior.
Há os políticos, que nos ensinam todos os dias mais uma lição sobre a nobre arte do queixume. Queixam-se uns dos outros, uns pelos outros e deles próprios.
Há os drogados, os alcoólicos, os pedintes, os sem-abrigo e demais excluídos do sistema que até são os que se queixam menos, ou porque já se cansaram ou porque não há ninguém que os ouça.
Há o intelectual que, se pensa, mais tarde ou mais cedo também pensa matar-se, é óbvio, perante tanta pobreza cultural, tanto deserto de boas ideias, de pensamento construtivo, de soluções criativas, que ele próprio acaba por não conseguir providenciar.
Há os ricos, que se queixam de depressão, de lhes ter corrido mal a cirurgia estética, de terem sido traumatizados na infância porque no colégio particular lhe chamavam “badocha” e/ou “caixa-de-óculos”, de o psicólogo não os compreender, de a vaca da secretária só ter feito merda com as reservas das férias nas Caraíbas, e mais recentemente, também se queixam de serem perseguidos pelo fisco.
Há os padres e os acólitos, que se queixam da horda de assassinas em potência que grassam pelos seus rebanhos, criaturas essas que tentam a todo o custo salvar do juízo final, que é, segundo eles, muitíssimo pior que passar até três anos numa prisa portuguesa.
E há todos os outros que não se encaixam em nenhuma destas categorias (ou se encaixam em mais do que uma) que também se queixam, a torto e a direito, sobre tudo e sobre nada, com razão e sem razão, de dia ou de noite, de Inverno ou de Verão.
Estes somos nós: os portugueses.
E atenção: isto não é uma crítica. É apenas uma constatação. Numa sociedade votada ao mediavalismo, à pobreza generalizada e ao analfabetismo durante quase 50 anos pelas políticas concertadas de Salazar e da Igreja Católica, amordaçada por medidas altamente repressivas e com a resignação inculcada pela religião cristã do "dá a outra face", governada pela corja de políticos demagógicos e desonestos que sempre tivemos (consultar por exemplo obras de Eça de Queiróz e outros contemporâneos, para referências ao passado) é muito difícil não se sentir vítima das consequências inerentes à nossa nacionalidade, até porque se o é, realmente.
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Buraco tapado por Citadina às 10:59
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