Sexta-feira, 8 de Dezembro de 2006

Um Conto de Natal (ficção ou realidade?)

Luanda, 8 de Dezembro de 2006
 
Hoje foi-me concedida uma audiência com o Chefe dos Serviços de Estrangeiros e Fronteiras de Angola.
Expus-lhe os factos: trabalho como consultor independente para um dos ministérios deste país há 18 meses.
 
Abrir parêntesis: sou um técnico altamente qualificado, mas o meu país aparentemente não precisa de mim. Durante uma vida inteira, sempre que tive de trabalhar – ou seja, basta dizer “sempre” – fui obrigado a expatriar-me. Já muitos países precisaram de mim. Estou a falar de mais de dez, em vários continentes. Mas o meu não, pelos vistos. Fechar parêntesis, continuando com os factos.
 
Há 18 meses mandaram dizer que em Angola precisavam de mim – e eu precisava do trabalho - e portanto mandaram-me vir, que se ia tratando das formalidades, que era urgente começar, que contavam comigo.
Mas só há nove meses é que me foram facultados pela minha entidade empregadora os documentos necessários para submeter um pedido de visto de trabalho . Antes disso (bom, na verdade, até hoje) era obrigado a sair de Angola de três em três meses, que é a duração de um visto ordinário. E para poder voltar ao meu posto de trabalho, por vezes esperei dois meses até que me fosse concedido novo visto.
 
Abrir novos parêntesis: Nesses tempos de espera não ganhava (ganho) dinheiro nenhum, mas as propinas dos meus filhos, a prestação da minha casa, do carro, as contas da luz, da água, do gás, do telefone, continuavam (continuam) inexoravelmente a chegar. Fechar.
 
Há um mês, fui informado que o meu visto de trabalho estava pronto, mas que só o Consulado angolano em Portugal é que mo podia dar, e só a mim, claro, “ao próprio”.
Viajei para Portugal. Gastei uma pipa de massa na passagem aérea para chegar a Portugal e me dizerem que tinha havido um engano qualquer, que não tinham visto nenhum para me dar, que aliás nem sabem onde pára o meu processo, que vão procurar...
 
Perdi mais um mês – sem ganhar dinheiro – à espera que me dessem mais um visto ordinário, para poder voltar a ir trabalhar para Angola, para tão longe dos meus filhos!
 
Parêntesis: será que já referi que mal vi os meus filhos crescerem? Não tive essa oportunidade. Sempre trabalhei em sítios nada aconselháveis para crianças. Cenários de guerra, pós-guerra, etc.... Fechar.
 
Que gostaria de saber onde pára o meu processo de pedido de visto de trabalho, e em que estado se encontra.
 
Após um longo silêncio que pretendia ser intimidante , foi-me dito sumariamente que o que eu devia ter feito era ter aguardado em Portugal que se desenrolasse todo este processo, que já se sabe que estas coisas demoram, e que eu estou ilegal em Angola. (!!!!)
Que o processo deve andar por uma das instituições envolvidas, Ministério do Trabalho, Ministério da Administração Interna, enfim, um deles.
Que tenho de ter paciência, aguardar.
 
Parêntesis: estou aqui para, entre outras coisas, formar quadros locais em áreas estratégicas para Angola. No entanto, sou olhado com desconfiança e desprezo pelos locais, porque estou a “levar” o dinheiro que é deles! É assim que vêem a questão: este tuga de merda não está aqui a transmitir conhecimentos que eles não têm, a contribuir para o desenvolvimento do país deles. Está a roubar o dinheiro “deles”, dinheiro esse que provém de donativos, subsídios, empréstimos a fundo perdido, investimentos, o que quiserem, estrangeiros!
 
Não posso ir a casa no Natal. Já perdi demasiado tempo em Portugal. O banco não se esquece de mim. Trata-me muito bem quando estou aqui, a fazer transferências para a conta daí, mas muito mal quando estou aí, e se me acaba o plafond , e as prestações caiem...no vazio.
 
Mais um Natal sem os meus filhos. Será que algum dia eles compreenderão?
Buraco tapado por Citadina às 19:31
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