Segunda-feira, 9 de Abril de 2007

Fado Lisboa

Porque não há pachorra para essa cena da Páscoa, e por outras razões que não são da vossa estimada conta, este fim de semana embrenhei-me em Alfama, para duas noites de fado. Há coisas nesta cidade que nem se sabe que existem. Vidas. Gente que passou por tudo menos por facilidades. Gente que canta e serve às mesas. Gente que ama o fado porque se não amasse não o cantaria assim. Provavelmente não cantaria de todo. Gente com os transtornos no rosto, gente marcada na face pelo passar do desespero. Gente que ainda assim sorri. Que ainda assim te sorri, a ti que nem te conhece, um sorriso exausto mas sincero. Gente que não renega a única herança que lhe coube: o Fado. Gente que não se vê de dia, porque se movem como fantasmas.
 
Vê-te. Essa gente vê a tua alma sem roupa, traça-te um perfil em segundos e a sina secretamente. Com toda a probabilidade enganam-se. Mas essa história assim nascida fica indelével em ti, fica-te associada e é como te identificarão nas suas rasgadas memórias. Decerto adaptam-te as feições à meia luz, numa pincelada impressionista, e se te virem ao sol, nunca imaginarão que és tu. O teu corpo não interessa, o que lá deixaste é deles.
Esquecem-te, vivem contigo uma noite e esquecem-te, esquecem tudo, todos, noite após noite, todos os rostos diferentes, todos iguais.
Muito tempo depois, quando já ninguém, nem tu, se lembrar de nada, contarão esse teu esboço biográfico, quem sabe num fado, onde no entanto não te reconhecerás.

E assim se constrói a história de uma cidade.

Buraco tapado por Citadina às 12:19
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De Duca a 9 de Abril de 2007 às 17:24
Mais um dos teus belíssimos textos. Se eu fosse estrangeira e nunca tivesse ouvido falar de Fado e lesse este teu texto ficaria com vontade de o ouvir e conhecer in loco.
Uma visão realista do Fado que eu gostaria de ter passado para o papel da forma sublime como o fizeste.
Beijo, minha querida.
De Citadina a 11 de Abril de 2007 às 13:52
Obrigada Duca!
Ainda bem que gostaste. Havia muito mais a dizer sobre o Fado. Este é apenas um texto sobre uma cidade e as gentes que nela vivem e vivem dele.
Beijinhos!
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