Terça-feira, 19 de Junho de 2007

Excertos da memória - 2

Querido blogue,

Ainda na sequência do meu aniversário, ontem fui jantar a casa dos meus pais, que estavam por terras de Espanha na devida data.

Entre memórias de sabores de infância, odores e lugares, acabou por se resgatar do passado uma viagem que fizemos a Trás-os-Montes no início dos anos 80.

Só de pensar nisso invade-me um sorriso incontrolável próprio de quem contempla uma preciosidade que é única e sua.

Hoje tenho terror de voltar a essas paragens, decerto consumidas pelo alcatrão, onde antes só havia, por entre as casas, a terra sulcada pelos carros de bois, atapetados esses corredores por palha e merda que se espalhava aí, não sei por que lógica razão.

Essa terra não sei de que cor era, mas a atmosfera era escura, medieval, invernosa. Muito escura também era a noite em que chegámos, e juro que não me lembro de um breu assim, em que não distinguia a parede do edifício da estação de comboios a três ou quatro metros de mim, nem tão pouco os corpos do meu pai e da minha irmã, a que me uniam as duas mãos, como que num cordão de segurança.

A viagem tinha começado no Porto, provavelmente em Campanhã, e cinco ou seis horas depois, percorrida toda a linha do Douro num comboio puxado por uma automotora a gasolina, a que a cada paragem se abria o motor para deitar água no radiador, provocando um espectáculo quase pirotécnico, ou pelo menos a fumarada assim o anunciava, chegámos a Urrós, concelho de Bragança e literalmente o fim da linha.

No entanto não era esse o nosso destino final. Como que por magia, numa era em que nem telefones fixos estavam à disposição naqueles ermos esquecidos, quanto mais telemóveis, começámos, assim que os nossos olhos se adaptaram à escuridão, a ver surgir dois faróis na estrada, muito longe na noite, ainda nem se ouvia o barulho do motor, e depois mais perto, perto de nós, para nós, num timming perfeito, sabendo que três alminhas esperavam ali aquele transporte, àquela hora, num "truque" de sincronia perfeita a que hoje apetece bater palmas!

O nosso anfitrião chegou nesse Mercedes que nunca esqueceremos por ter sido a primeira limousine que vimos na vida, com três filas de assentos e provavelmente o único táxi da região.

O caminho era agora para a casa de Bemposta, a meros dois quilómetros da fronteira espanhola de Zamora. Essa era uma casa transmontana, robusta e rude, mas grandiosa no seu carisma, e por onde alguns ilustres passaram. Mas isso é outra (parte da) história.

(continua)
Buraco tapado por Citadina às 12:00
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2 comentários:
De Duca a 19 de Junho de 2007 às 14:44
Minha querida

Sabes bem como gosto de te ler. Tens esse dom, cada vez mais raro, para a narrativa escorreita, descritiva, descomplicada, despretensiosa e tão bela.

Fico ansiosamente à espera dos próximos capítulos.

Beijo

De viz a 19 de Junho de 2007 às 17:17
pois, ela já falou...para todas,
aguardamos
bjkas

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