Segunda-feira, 30 de Julho de 2007

Últimos efeitos (de calor e álcool)

Havia pó, uma muito densa nuvem de pó e, dentro do pó, a casa. Num início de tarde de extremo calor o vento desfaleceu e pôde-se finalmente ver as pereiras que ladeavam a escadaria exterior do solar, assim como os três cães presos a elas por correntes, mortos de fome e sede. Foi nesse preciso momento que chegámos. De repente, estávamos lá, como aparições sobrenaturais, estáticas, de pernas e braços entreabertos, ombros retesados, lado a lado. Os cães já não ladravam há uns dias, mas assim que nos viram levantaram-se num salto e assassinaram-nos com o olhar. Começaram a ladrar furiosamente, espumando aos cantos da boca, escorrendo raiva pelos caninos, e apesar de ser incerto se nos consideravam comida ou cruéis, tive medo pelas duas razões.
Em todas as casas de que não me esqueci há uma figueira. E eu que nem gosto de figos. Nesta também. Entrei por debaixo dela, que envolvera o portão há muito, ou o espaço onde havia o portão de ferro forjado, agora caído sobre as raízes que desconjuntaram o muro onde se fixavam as charneiras. Nunca tirei os olhos dos cães, que davam esticões tresloucados às correntes, e eu não sabia quanto mais elas iam aguentar. Mas avancei. Avançámos, tu um passo atrás de mim. Se se soltassem ficaríamos retalhadas em segundos. Não havia para onde fugir. Não tínhamos a chave da casa e sabíamos que não havia ninguém para nos abrir a porta. Não conseguiríamos subir à figueira a tempo, quanto mais alcançar o carro, parado lá em baixo, no princípio do acesso.
Foi então que levei o primeiro tiro. Atingiu-me no antebraço esquerdo. Voltei-me com a força do impacto e dei de caras com os teus olhos emancipados das órbitas pelo choque e pela surpresa. Tentaste amparar-me, proteger-me. Acompanhaste-me na descida até ao chão. Deitei-me e tu apoiaste-me a cabeça no regaço. Os cães calaram-se. O velho apareceu, com a espingarda apontada a nós. Ninguém dizia nada. Não me doía, mas queimava. Silêncio. Silêeencio...
Não. Um telefone tocava. Tocava. Tocava. O velho também ouvia. Voltou lentamente a cabeça na direcção do som, mas não a arma. Olhou-me de novo. E BANG! Estremeci violentamente, tentando ao mesmo tempo perceber onde este me tinha atingido. Dobrei-me como uma mola e fiquei sentada.
Depois de recuperar o fôlego, sequei a testa com as costas da mão esquerda e desliguei o despertador com a direita.
Buraco tapado por Citadina às 18:33
Link do post
Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Dezembro 2010

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
16
17
18
19
20
25
26
27

Posts por autora

Pesquisa no blog

Subscrever feeds

Arquivo

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Tags

a vida dos outros(31)

açores e madeira(7)

ambiente e oceanos(21)

aniversários(19)

artes(6)

autarquias(12)

auto-recriações(24)

autores(7)

bem-estar(11)

blogs(73)

capitalismo(8)

catástrofes(4)

charlatonices(2)

cidadania(14)

ciências(3)

cinema(18)

citações(38)

clima(7)

condomínio(2)

curiosidades(26)

democracia(32)

desemprego(13)

desporto(22)

dilectos comentadores(5)

direitos humanos(11)

direitos liberdades e garantias(39)

e-mail e internet(6)

economia(27)

educação(8)

eleições(14)

emigração(5)

empresas(3)

estados de espírito(60)

europa(2)

eventos(33)

excertos da memória(24)

fascismo(9)

férias(25)

festividades(29)

fotografia(12)

gatos(10)

gestão do blog(15)

gourmet(3)

grandes tentações(11)

hipocrisia(3)

homens(6)

homofobia(17)

humanidade(8)

humor(24)

igualdade(20)

impostos(5)

infância(7)

insónia(6)

int(r)agável(25)

intimismos(38)

ivg(17)

justiça(17)

legislação(17)

lgbt(71)

liberdade de expressão(13)

língua portuguesa(7)

lisboa(27)

livros e literatura(21)

machismo(3)

mau gosto(8)

media(3)

mulheres(17)

música(35)

noite(5)

notícias(22)

óbitos(5)

países estrangeiros(19)

personalidades(9)

pesadelos(5)

petróleo(4)

poesia(9)

política(86)

política internacional(30)

por qué no te callas?(9)

portugal(31)

publicações(6)

publicidade(9)

quizes(8)

redes sociais virtuais(9)

reflexões(58)

religião(19)

saúde(6)

ser-se humano(15)

sexualidade(9)

sinais dos tempos(8)

sociedade(45)

sonhos(6)

televisão(23)

terrorismo(4)

trabalho(20)

transportes(7)

viagens(19)

vícios(13)

vida conjugal(17)

violência(4)

todas as tags

Quem nos cita