Segunda-feira, 15 de Outubro de 2007

As palavras

Não quero deixar de compartilhar hoje convosco dois poemas lindíssimos de Eugénio de Andrade sobre as palavras.

 

As palavras que te envio são interditas

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.


As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Tags:
Buraco tapado por Cosmopolita às 14:48
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7 comentários:
De e também ... a 15 de Outubro de 2007 às 18:18

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.


Alexandre O'Neill




(Beijos para ambas.)
De Cosmopolita a 15 de Outubro de 2007 às 19:37
Querida Nnanna:

Sabia que se alguém respondesse, esse alguém serias tu! Com essa alma gentil, a beleza da forma e conteúdo das palavras, o domínio magistral da língua portuguesa...

Obrigada pelo poema!

Beijos de ambas.
De Duca a 15 de Outubro de 2007 às 22:27
Com Palavras

Com palavras me ergo em cada dia!
Com palavras lavo, nas manhãs, o rosto
e saio para a rua.
Com palavras - inaudíveis - grito
para rasgar os risos que nos cercam.

Ah!, de palavras estamos todos cheios.
Possuímos arquivos, sabemo-los de cor
em quatro ou cinco línguas.
Tomamo-las à noite em comprimidos
para dormir o cansaço.

As palavras embrulham-se na língua.
As mais puras transformam-se, violáceas,
roxas de silêncio. De que servem
asfixiadas em saliva, prisioneiras?

Possuímos, das palavras, as mais belas;
as que seivam o amor, a liberdade...
Engulo-as perguntando-me se um dia
as poderei navegar; se alguma vez
dilatarei o pulmão que as encerra.

Atravessa-nos um rio de palavras:
com elas eu me deito, me levanto,
e faltam-me as palavras para contar...


Egito Gonçalves,
in Sonhar a Terra Livre e Insubmissa

De Cosmopolita a 16 de Outubro de 2007 às 13:31
Querida Duca:

Não conhecia este escritor, mas o poema é lindíssimo! Tu és sempre cheia de surpresas...
De Oui, c'est moi a 15 de Outubro de 2007 às 23:15
Sempre que se fala de palavras, lembro-me destas do Paul Éluard
(...)
Il y a des mots qui font vivre
Et ce sont des mots innocents
Le mot chaleur le mot confiance
Amour justice et le mot liberté
Le mot enfant et le mot gentillesse
Et certains noms de fleurs et certains noms de fruits
Le mot courage et le mot découvrir
Et le mot frère et le mot camarade
Et certains noms de pays de villages
Et certains noms de femmes et d’amis.

Paul Eluard
De Cosmopolita a 16 de Outubro de 2007 às 13:52

Querida, que surpresa agradável! Bem vinda!

A este poema respondo-te com outro sobre...palavras!

Beijos e aparece mais vezes.

Palavras

Habito por dentro
das palavras

com tectos de saliva
e quartos grandes

na união total
e humidade
no deslizar da vida na garganta

Habito as manhãs
a cor, o tempo
a curva adocicada da vontade

aquilo que se prende
e apreendo

aquilo que desfaço
e não disfarço

Depois, a vastidão
o riso e o sossego

sossego sem ser paz
nem desventura

Respiro o que não tenho
e o que prendo

habito o que descubro
aquilo que desvendo

o corpo
a revolta
a pele os ombros

o ritual interno
da ternura

E se as palavras tenho
como armas
moldando-as uma a uma
consciente

É de habitá-las hoje
que suponho
não mais poder usá-las conivente

Maria Teresa Horta
De Lou a 17 de Outubro de 2007 às 22:53
Obrigada Cosmopotita querida :-)
Fica sabendo este nunca ouvi cantar... nem ler...

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