Terça-feira, 22 de Janeiro de 2008

R(a)lações amorosas

Estive a ler no outro dia um post muito interessante: “Revoluções amorosas” no Uva na Vulva. Resume muitos livros que li, muitos conselhos que me deram, muitos caminhos que percorri nos meus afectos.

...O que se busca hoje é uma relação compatível com os tempos modernos, na qual exista individualidade, respeito, alegria e prazer de estar junto, e não mais uma relação de dependência, em que um responsabiliza o outro pelo seu bem-estar.

A idéia de uma pessoa ser o remédio para nossas felicidades, que nasceu com o romantismo, está fadada a desaparecer neste início de século. O amor romântico parte da premissa de que somos uma fração e precisamos encontrar nossa outra metade para nos sentirmos completos. Muitas vezes ocorre até um processo de despersonalização (…).

...A palavra de ordem deste século é parceria. Estamos trocando o amor de necessidade pelo amor de desejo. Eu gosto e desejo a companhia, mas não preciso - o que é muito diferente.

O outro (...) É apenas um(a) companheiro(a) de viagem.


A nova forma de amor, ou mais amor, tem nova feição e significado. Visa a aproximação de dois inteiros, e não a união de duas metades. E ela só é possível para aqueles que conseguirem trabalhar sua individualidade. Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho, mais preparado estará para uma boa relação afetiva.

O amor de duas pessoas inteiras é bem mais saudável. Nesse tipo de ligação, há o aconchego, o prazer da companhia e o respeito pelo ser amado.

A Duca citou-o e escreveu um post também muito interessante a propósito do “Amor e apego”, que já comentei.

Penso que inerente às relações de afecto deve estar o conteúdo dum poema do meu dilecto Reinaldo Ferreira “Mínimo sou, mas quando ao nada empresto a minha elementar realidade, o nada é só o resto”.

Se não formos capazes de nos amarmos e respeitarmos tanto ou mais do que aos outros, não conseguiremos jamais que os outros nos amem e respeitem também. A auto-estima, o amor-próprio, a busca da felicidade, a recusa da mediocridade por acomodação, a independência, a não anulação da personalidade e vontade própria em função de outrém, a criação de espaços de cedência consensuais que não violem nenhuma das partes, a capacidade de reconhecer erros, de pedir desculpa, o não se abdicar da cerimónia um com o outro, a capacidade de priorizar e relativizar as coisas, a de se reinventar ao amor e a sensualidade, o saber o que se quer (ou pelo menos o que se não quer de todo), entre muitos outros factores, são absolutamente essenciais para que se possa amar e não estar apenas apegado, para que as relações entre pessoas sejam saudáveis e não afectos doentios, portadores de traumas e infelicidade. Não convém assim esquecermo-nos que nas relações vítima-carrasco são ambos cúmplices disso, não há inocentes nem culpados.

A (des)propósito apeteceu-me deixar aqui a letra da canção “Bem querer” que a Maria Bethânia canta tão bem:

Quando o meu bem-querer me vir
Estou certa que há de vir atrás
Há de me seguir por todos
Todos, todos, todos os umbrais

E quando o seu bem-querer mentir
Que não vai haver adeus jamais
Há de responder com juras
Juras, juras, juras imorais

E quando o meu bem-querer sentir
Que o amor é coisa tão fugaz
Há de me abraçar com a garra
A garra, a garra, a garra dos mortais

E quando o seu bem-querer pedir
Pra você ficar um pouco mais
Há que me afagar com a calma
A calma, a calma, a calma dos casais

E quando o meu bem-querer ouvir
O meu coração bater demais
Há de me rasgar com a fúria
A fúria, a fúria, a fúria dos animais

E quando o seu bem-querer dormir
Tome conta que ele sonhe em paz
Como alguém que lhe apagasse a luz
Vedasse a porta e abrisse o gás.

Buraco tapado por Cosmopolita às 15:27
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