Quinta-feira, 11 de Janeiro de 2007

Série "Hipocrisia e preconceito" - Do aborto

Em Portugal não se pode ter um comportamento diferente, verbalizar ou assumir seja o que for sem que, de imediato, isso obrigue os outros a emitir juízos de valor baseados em preconceitos provincianos e pequeno-burgueses, numa falsa e hipócrita moral cristã.
 
E quando toca ao aborto, aí é que o caldo se entorna! Aí é que as organizações religiosas tocam a rebate e fazem verdadeiras campanhas de marketing para juntar os seus rebanhos contra as "criminosas" que querem poder decidir do seu corpo, do seu desejo ou possibilidade de serem mães. Aí é que a falsa moral social intervém no apedrejamento público, segundo as leis da charia, das mulheres que ousam tomar uma tal decisão. E mostra a experiência que, muitas vezes, as vozes mais alteradas vêm de pessoas que praticaram, consentiram, intervieram ou foram de uma maneira qualquer cúmplices de decisões idênticas.
 
Não tenho conhecimento de nenhum caso de exacerbado masoquismo feminino em que a mulher, apenas por mero prazer ou instintos assassinos, decidisse fazer um aborto. Pelo contrário. As mulheres que conheço e que o fizeram tiveram sempre um grande trauma e sofrimento, senão físico, pelo menos psíquico. E também não é por acaso que as unidades clínicas ou hospitalares em que há casos de patologias da gravidez ou onde se praticam abortos se encontram separadas das maternidades. Para que as mulheres que perdem os filhos por opção ou não, não sofram ainda mais com isso.
 
Como referiu Odete Santos na Assembleia da República e se reproduz aqui, "O que sempre se quis disfarçar e mesmo esconder por debaixo da violência do aborto clandestino, foi o preconceito contra a mulher. Por isso é que o argumento da protecção da vida humana intra-uterina é um argumento de violenta hipocrisia. Porque se sabe, de um saber de séculos, que não se protege o embrião nem o feto com a criminalização da mulher. Não restando na argumentação procriminalização a não ser esse tal preconceito anti-feminino .
 
Se a Mulher tem o domínio da vida, abrindo as portas ao Conhecimento (e não é por acaso que na Idade Média já o fruto Maçã tinha esse símbolo, significando Conhecimento) então houve que reduzi-la a um útero. Tota muliere in utero , segundo S. Tomás de Aquino, ou, segundo Bonaparte, "A mulher não é senão um ventre". Como muito bem o refere Simone de Beauvoir no "Segundo Sexo."
 
E foi por isso que se encarceraram mulheres como Margaret Sanguer e Mary Stoppes , apenas por divulgarem o planeamento familiar e o controle dos nascimentos.
 
É por isso que se cerceia às mulheres o direito de opção. É por isso que o Estado se arroga o direito a invadir a sua privacidade expondo a sua intimidade na barra do Tribunal e na praça pública. É por isso, porque persiste o preconceito de que a mulher não é capaz de tomar decisões responsáveis, que se age como se o Estado fosse dono da sua fecundidade. É mesmo por isso que se devassa a privacidade das mulheres em processos referendários, para perguntar aos outros, se as mulheres têm capacidade para tomar decisões, se as mulheres têm direito à saúde reprodutiva. Para perguntar aos outros se o Estado, em nome de metafísicas concepções de uma parte apenas da sociedade, deve invadir a privacidade dos quartos de dormir, e ordenar às mulheres que tenham filhos não desejados nem planeados, contra o seu direito à maternidade consciente."
 
Fiquei boquiaberta com uma notícia (que seria caricata, se não fosse ignóbil), em que um homem que dava a cara por mais um movimento a favor do “Não” invocava o crescimento demográfico, o problema do futuro da segurança social e até o défice orçamental, para justificar a opção deste movimento! É de pasmar!!!! “Santa” hipocrisia...
Buraco tapado por Cosmopolita às 12:10
Link do post | Tapa também
11 comentários:
De Rui a 11 de Janeiro de 2007 às 16:08
Votem não!
Vejam a minha análise profunda e séria sobre uma sondagem sobre o aborto:
http://ingrato.blogs.sapo.pt
De Duca a 11 de Janeiro de 2007 às 16:30
rrcn

Fui ao seu blog ler a sua "análise profunda e séria" e concluí que não leu a análise, essa sim, profunda e séria, da Cosmopolita.

Considerar que escrever sobre uma situação hipotética de carregar em botões que despoletam cadeiras eléctricas mortíferas, uma análise profunda e séria do problema da DESPENALIZAÇÃO do aborto, desculpe, mas é caricato.

Sabe quantas vezes os hipócritas (geralmente homens o que não deixa de ser interessante) que querem ver as mulheres continuarem a ser condenadas por aborto opcional carregam diariamente em botões causando morte? Quem os condena?
De rrcn a 11 de Janeiro de 2007 às 18:07
Talvez se dessemos as condições que essas mulheres precisam, não seria necessária a despenalização e o aborto já não seria uma opção.
Veja o artigo http://ingrato.blogs.sapo.pt/652.html mas não leve o que está lá escrito literalmente pois é um blog de humor. Tem prceder a uma descodificação.
De Duca a 12 de Janeiro de 2007 às 00:34
"Talvez se dessemos as condições que essas mulheres precisam, não seria necessária a despenalização e o aborto já não seria uma opção."

Pois, esse é dos argumentos mais usados, já o foi no anterior referendo e desde essa altura, não só nada se fez, como se piorou as condições de vida das mulheres e de toda a gente.

Portanto, é um argumento não credível, totalmente vazio e, consequentemente, inconsistente.

rrcn, sou a favor da despenalização do aborto há muito tempo e garanto-lhe que conheço de cor todos os argumentos daqueles que querem continuar a humilhar mulheres levando-as a tribunal por terem optado por abortar.

Tal como diz Odete Santos "... não se protege o embrião nem o feto com a criminalização da mulher. Não restando na argumentação procriminalização a não ser esse tal preconceito anti-feminino."

E é pelo facto de eu saber isto e de ser mulher que nunca alterarei uma vírgula sobre o que penso.

Portanto, rrcn, desista porque não me vai converter à sua causa meramente machista.
De Citadina a 12 de Janeiro de 2007 às 12:49
Quanto a isso ("...não leve o que está lá escrito literalmente pois é um blog de humor. ") não se preocupe: ninguém aqui o está a levar a sério, e já percebemos que o seu blog é de humor (fraquinho, fraquinho... E negro, por vezes).
Continue a mandar postais, mas nós vamos votar SIM na mesma portanto se era o seu objectivo alterar isso... Temos pena.
De rrcn a 13 de Janeiro de 2007 às 17:26
É claro que é fraquinho para vocês. Além de serem o alvo, já me apercebi que não são capazes de discernir as coisas.
De Cosmopolita a 11 de Janeiro de 2007 às 17:17
Pois caro rrcn , também lá arranjei um bocadinho para retribuir a sua amável visita e tomar a liberdade (eu sei que não gosta nada disto, mas...) de lhe fazer a seguinte sugestão: preocupe-se antes com a intervenção dos EUA e seus aliados Blair , Aznar , Durão Barroso, Ariel Sharon , etc ) no Iraque, na Somália e onde quer que eles decidam por sua alta recreação e contra o Direito Internacional intervir matando indiscriminadamente e em massa milhares de inocentes... Aí se calhar já não é tão crítico, mas sabe que dava mais sentido à sua vida e ocupava o seu tempo de uma forma muito mais útil?
Sabia que há milhares de mulheres no Irão e Iraque absolutamente viciadas em Valium porque não conseguem viver com os permanentes bombardeamentos, vendo matar os seus filhos (que elas não puderam abortar), irmãos, pais, etc. ?
Será que se insurge quando ouve notícias como a de que morreram hoje na Somália por causa dos bombardeamentos norte-americanos 100 pessoas inocentes e que foram consideradas pelos EUA como "danos colaterais" da luta contra o terrorismo?
Deixe as mulheres decidir em paz que elas são responsáveis (sim, sim, é incrível, mas é verídico).
Ou prefere mais carne para canhão da Casa Pia, mais crianças a pedir ou a trabalhar desde a infância para manter a família, ou a prostituir-se, ou a drogar-se ou no desemprego por os pais não terem condições socioeconómicas e psicológicas para as criar?
Não seja assim tão "ingrato" .
De rrcn a 11 de Janeiro de 2007 às 18:11
Cosmopolita, posso saber o que faz em relação a esses assuntos internacionais que tanto a preocupa?
O título ingrato tem a ver com outra coisa, não tire conclusões precipitadas.
De Duca a 11 de Janeiro de 2007 às 16:49
"O que sempre se quis disfarçar e mesmo esconder por debaixo da violência do aborto clandestino, foi o preconceito contra a mulher. Por isso é que o argumento da protecção da vida humana intra-uterina é um argumento de violenta hipocrisia. Porque se sabe, de um saber de séculos, que não se protege o embrião nem o feto com a criminalização da mulher. Não restando na argumentação procriminalização a não ser esse tal preconceito anti-feminino."

Numa sociedade patriarcal, porque ainda maioritariamente governada por homens, a questão coloca-se muito mais na criminalização da mulher que aborta por opção, do que na protecção da vida. Isto é de uma hipocrisia que brada aos céus.

Tal como Odete Santos, eu sabia que eram estas as razões, apenas não conseguia verbalizá-las como ela o fez de forma tão objectiva.

Excelente análise, Cosmopolita.
De Cosmopolita a 11 de Janeiro de 2007 às 17:25
Muito obrigada, Duca !
De dalila a 23 de Setembro de 2010 às 23:47
este assunto não tem nada a ver com aborto principalmente a favor éee isso ai

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