Quarta-feira, 23 de Julho de 2008

A química do amor

Fala-se muito em química a nível de pele, de sexo e do amor. Diz-se que tem de haver química entre duas pessoas senão a relação não resulta ou pelo menos não é inteiramente satisfatória.

 

Este tema é muito frequentemente abordado nos dias de hoje e multiplicam-se os estudos sobre estas reacções poderosas e fascinantes. O Murcon refere aqui um deles.

 

Mas vejamos de que química se trata, na verdade.

 

Segundo afirma a Dr. Cindy Hazan Cindy Hazan da Universidade Cornell de NY, depois de ter estudado 5000 pessoas de 37 culturas diferentes, os neurotransmissores de maior responsabilidade pelos sentimentos de paixão, desejo e amor são a feniletilamina, dopamina, endorfina, e oxitocina.

 

Suspeita-se que a produção no cérebro da feniletilamina, neurotransmissor associado à paixão e desejo sexual e responsável pelas sensações e alterações fisiológicas que experimentamos quando estamos apaixonados, possa ser originada por actos tão simples como uma troca de olhares ou um aperto de mãos.

 

A produção de dopamina, que promove aparentemente a sensação de prazer e de motivação, pode ser responsável, entre outros efeitos, por estarmos inquietos e agitados, pela falta de apetite, euforia, insónia e o pensamento obsessivo de quem ama. Supõe-se também que o desejo sexual seja incentivado por esta substância, pois a sua quantidade no cérebro é proporcional à intensidade da paixão que se sente.

 

A endorfina, pelo seu lado estará associada ao prazer, seja ele sexual ou de uma emoção amorosa, e ainda à sensação de se estar a viver um sonho, da saudade da pessoa amada, mesmo quando esta está presente. Apesar de o cérebro não conseguir produzir a endorfina correspondente à paixão e ao desejo durante muito tempo, verificou-se que a sua concentração no cérebro aumenta exponencialmente quando se atinge o orgasmo.

 

A oxitocina é uma hormona associada, a vários aspectos da vida sexual e afectiva, que se pensa ser responsável pela preferência sexual, pela formação de laços afectivos, pela diminuição de agressividade e aumento do comportamento de responsabilização e protecção, pela entrega e partilha, característicos da relação monogâmica.

 

As pesquisas da Dra. Helen Fisher, antropologista da Universidade Rutgers, demonstram também que podemos relacionar as diversas étapas de um relacionamento e as respectivas manifestações físicas e emocionais com as substâncias que as originam. Segundo ela o desejo ardente de ter sexo, deve-se a altos níveis de testosterona. Já a fase de atracção (enamoramento, envolvimento emocional e romance) se deve principalmente a altos níveis de dopamina e a baixos níveis de serotonina (que é inversamente proporcional ao aumento das hormonas sexuais). Por último, a fase final de ligação emocional, onde a atracção e toda a loucura é substituída por uma relação segura, monogâmica e duradoura de amor e compromisso, é devida principalmente à oxitocina (esta associada ao aumento de desejo sexual, orgasmo e bem estar em geral).

 

Recentemente, os cientistas da Universidade de Pavia em Itália concluiram também que a neurotrofina (NGF), uma proteína identificada pela prémio Nobel italiana Rita Levy Montalcino, seria a proteína da paixão e do desejo, estando o aumento dos seus níveis relacionado com os primeiros impulsos do amor romântico e o turbilhão de sentimentos de euforia e dependência que surgem no começo de um relacionamento amoroso e pelas alterações fisiológicas inerentes, tais como a ansiedade e expectativa, o bater descompassado do coração, o suor nas mãos e borboletas na barriga. A produção e níveis de neurotrofina no organismo seriam inversamente proporcionais ao tempo de duração da relação.

 

No entanto, todos os cientistas são unânimes ao concluir que, embora todas estas substâncias sejam comuns ao organismo dos seres humanos, apenas nas fases iniciais da paixão são encontrados juntos, pois com o tempo o organismo alvo destas substâncias, vai ficando resistente aos efeitos destas, como acontece em geral com qualquer tipo de droga. Em consequência desta habituação, toda a loucura inicial vai desaparecendo gradualmente com o passar do tempo, sendo por isso que a fase ardente da atracção inicial ou paixão não dura para sempre, tem uma duração limitada no tempo, que é, em média de 18 a 30 meses. Após este período o casal ou se separa ou se habitua a manifestações mais calmas de amor, partilhando companheirismo, afecto, tolerância e estabelecendo um compromisso duradouro juntos.

 

Ou seja, a neurotrofina traz o estado de graça embora de curta duração. Já a oxitocina consolida o estado sem graça, que pode ser eterno, até que a morte nos separe (Tânis Fusco).

Resumindo: a química, ao contrário do que parece ser comum pensar-se, não desaparece com o tempo. Só que há químicas e químicas...

Buraco tapado por Cosmopolita às 11:06
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12 comentários:
De Cosmopolita a 21 de Agosto de 2008 às 15:11
Cara x-pressiongirl, mais uma vez bem vinda!

Acho que esta questão é um bocadinho mais complexa do que parece, embora à primeira leitura possas ter razão. Sempre acreditei numa enorme e indissociável simbiose entre o cérebro e o orgânico, ou seja, eles influenciam-se e equilibram-se mutuamente e uma análise que ignore a influência da cabeça neste equilíbrio é, para mim, incompleta.

Sei que os psicólogos e sociólogos consideram que as pessoas como eu são uma minoria, mas sou capaz de me reapaixonar pela pessoa que amo de forma periódica. Ou seja, a minha cabeça obriga o corpo a fabricar regularmente este cocktail de que se fala no post e vejo-me novamente enamorada como uma adolescente.

Depois, com a maturidade vem também outra perspectiva das relações. Como diria o Murcon no seu post "Das brumas da memória:). Sem hino...":
"O fulcro da questão é o habitual... - deixar ou não um amor tranquilo por uma paixão avassaladora. Em trinta anos de profissão ouvi descrever as duas decisões e os trajectos subsequentes. Há quem fique por cobardia, pelos outros, por considerar que a paixão não resistirá ao quotidiano e um dia se assemelhará ao afecto deixado para trás. Há quem descubra não estar talhado(a) para a vida de casal, embora tenha pressionado o outro para o (a) seguir. Muitos dos julgamentos de valor a que assistimos partem do pressuposto que viver a paixão à custa de tudo o resto é quase uma "obrigação ética". Não concordo e a História também não. Acho perfeitamente legítimo resistir às consequências práticas de uma paixão e aos 58 já percebi que somos muito injustos para o amor tranquilo, chegamos a confundi-lo com monotonia e desistência!....Não serão as Pontes mais um exemplo da tradição ocidental de considerar perfeitos apenas os amores interrompidos por morte ou distância?"

Também acho que o desgaste das relações se deve grandemente a factores externos à própria relação e as pessoas já estão tão desgastadas nos dias de hoje que não resistem, muitas vezes, a problemas que as transcendem a elas próprias. É com frequência mais fácil partir para uma nova relação do que tentar fazer resultar a antiga, dá muito menos trabalho!

E claro, tal como a adrenalina nos atletas de desportos radicais, a neurotrofina é viciante para algumas pessoas. E, como dizes, "o nosso corpo viciado naquelas sensações vai procurar outro que nos volte a dá-las".

Um abraço e não desanimes

De x-pressiongirl a 22 de Agosto de 2008 às 23:12
Très bien. Também eu acredito imenso no equílibrio entre cérebro e corpo porque me sinto capaz de cultivar e de renovar a energia inicial que, para mim, nunca morre. Se a energia inicial, aquela doidice, começar a desaparecer, é sinal que as coisas vão mal. Lembro-me de olhar para a pessoa com quem mais tempo estive (3 anos e meio) e pensar " É impressionante como consigo gostar como no início" porque o coração de vez em quando pulava quando ela caminhava na minha direcção. Diria que os meus avós são eternos apaixonados, juntos há mais de 50 anos parecem gostar-se realmente muito, nota-se no tratamento, na forma de se despedirem, de se cumprimentarem, há algo de extraordinariamente belo nessa renovação. Não sei é se esta capacidade de nos reapaixnormos pela pessoa que consideramos amar é uma questão de treino, de biologia, ou de ética. É conversa que nunca mais acabaria. ;-)
Abraço,

x-pressiongirl
De Cosmopolita a 26 de Agosto de 2008 às 17:11
Pois é minha cara, mas independentemente da capacidade de cada um para se reapaixonar ou não, desde que haja amor, o verdadeiro problema para o casal só existe se o desejo mútuo desaparece. Como diz a canção "Amor sem sexo é amizade"!

De resto este tema daria, como dizes, uma conversa que nunca mais acabaria e assunto para "n" posts.

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