Segunda-feira, 8 de Setembro de 2008

Apologia do egoísmo

Eu teria dito logo "apologia do mau carácter", isto segundo a ordem de valores católica apostólica romana mas depois reconsiderei porque este texto trata precisamente de fugir aos juízos de valor.

Eu pergunto: devemos ser bons porquê? E principalmente, devemos ser bons de acordo com a avaliação de quem? O que é que há de bom nisso, a não ser para aqueles para quem somos bons?

A recompensa divina? A evolução pessoal? Olhe que não, car@ leitor@, olhe que não. Na verdade, o prémio da sabedoria só se concretiza se formos suficientemente inteligentes para não cair na esparrela de dar a outra face. Se a oferecermos, é porque não aprendemos nada com a primeira chapada.

A falácia é a seguinte: quando nos incitam a sermos bons, o que na verdade querem é que sejamos bons para eles. Para eles. Se daí advier algo de positivo para nós, tanto melhor. Se não, paciência.

Os exemplos começam antes mesmo de se aprender a andar na posição erecta. Se uma criança faz uma birra porque não gosta da sopa, os pais incitam-na a ser boazinha e a comer a sopa toda, mas para quem é que isso é bom na verdade? Exacto, para os pais. Para os pais se sentirem de consciência tranquila em relação à quantidade de ferro e fibras que a criança ingere, para se sentirem bem consigo próprios na qualidade de "bons" pais. Por outro lado, a manobra de incutir na criança a ideia que fazer birras é ser mau e não fazer birras é ser bom menino / boa menina constitui uma óbvia contribuição para o bem estar, livre de mialgias, dos pais. E para a criança, será bom? Será mesmo bom obrigá-la a comer aquela papa asquerosa e ainda por cima reprimir os seus sentimentos e minar a sua auto-estima com culpabilizações de valor?

Outro exemplo: Porque é que a empatia se estabelece num encontro fortuito? É muito simples: porque alguém disse algo que gostámos de ouvir e assim se estabeleceu uma preferência decorrente da identificação com o outro, identificação essa que é potencialmente boa para o nosso ego, porquanto valida a nossa filosofia de vida e a nossa auto-estima, sem no entanto dizer praticamente nada sobre a suposta "bondade" do outro. Na verdade, o mais comum é dizermos sobre alguém que nos contestou/confrontou: "este gajo/a é um/a anormal/idiota/paspalho, palhaço/... (inserir insulto ou desdém que melhor vos aprouver), ou  pelo contrário "que ser fantástico/maravilhoso/impecável/inteligente" sobre alguém que corroborou sistemáticamente as nossas teorias/posições.

Resumindo: a prática do bem em prol dos outros traduz-se, regra geral, numa manobra de auto-valorização - se esse bem for validado pelo reconhecimento - ou num penoso desperdício de energia - se não for.

Assim, o egoísmo como atitude anti-hipócrita de fazer o bem assumidamente por nós próprios consiste na fórmula inata mais eficaz de bem estar pessoal e não impede que o indivíduo seja solidário e tenha princípios éticos. Apenas evita que seja um totó errando pela vida com achaques de pundonor.

 

Agora, @ leitor@ pode cair na tentação de achar que, por ler este texto, já sabe algo sobre mim. Desengane-se. Eu não sou egoísta. Eu escrevi isto por me acontecer amiúde simpatizar com grandes putas dissimuladas e cabrões contestatários.

Buraco tapado por Citadina às 14:53
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10 comentários:
De VANESSA a 8 de Setembro de 2008
Olá! Apraz-me verificar que andas (mais?) atenta à dinâmica das interacções humanas e às intenções que as pessoas singulares ou colectivas transportam. É de facto muito raro observar ou saber de histórias de actos verdadeiramente altruístas. O sucesso tende a medir-se pela quantidade de bens que se possui e pelo volume da conta bancária. E como viver sem entrar nesta competição? Não é fácil. E ao entrar na competição temos todos que ser necessariamente um bocadinho egoístas, é verdade. No entanto, penso que se pode exercer um egoísmo direccionado. Isto é, um daqueles cabrões de que falas é certamente mais merecedor de actos de egoísmo do que outros que sejam menos cabrões. Podemos direccionar ou nivelar os nossos actos interesseiros conforme o objecto da acção seja mais ou menos cabrão. Seria uma forma de contribuirmos, altruisticamente, para um equilíbrio entre o bem e o mal universal (he! he!). Na onda do "ladrão que rouba ladrão...". Enfim, agora mais a sério. A "selecção natural" actua todos os dias na nossa espécie. Para sobrevivermos infelizmente cometemos muitas vezes injustiças sobre os mais fracos (quando os mais fracos não somos nós). E nunca percebemos bem até onde vai a extensão das nossas acções. É complicado conseguir estabelecer uma fronteira a partir da qual já não nos atrevemos a ir no matter what. Pois se todos os dias alguém nos entra fronteira a dentro... Como pessimista que sou penso que chegaremos a uma universal ausência de valores onde vale tudo desde que não se seja apanhado. A cena é que eu não me revejo nisto. Como tal devo fazer parte daqueles de quem não reza a história. Não interessa onde vá estarei sempre na presença de seres mais dotados para sobreviver que eu. Um brinde aos cabrões calculistas e às putas dissimuladas!
De Teresa Coutinho a 9 de Setembro de 2008
A meu ver, o facto de sermos ou não egoístas vai muito de cada um. Cabe a cada um agir segundo certos princípios, que não têm obrigatóriamente de agradar a A ou a B, mas para nós próprios. Acho que a consciência de cada um deve ditar o que fazer em cada caso e embora sejamos influênciados por factores externos, temos de ter certos princípios estabelecidos para nós próprios.
De Citadina a 10 de Setembro de 2008
Exactly my point, Teresa.
Obrigada pela visita.
De Citadina a 9 de Setembro de 2008
Sim, um brinde. Muitos deles, justiça lhes seja feita, até têm bastante piada, embora eu lhes deseje uma morte lenta e dolorosa.
Conservemos então o bom humor já que a história nos vai, de facto, ignorar ostensivamente!
De VANESSA a 9 de Setembro de 2008
É isso aí Bicho Lindo!!!

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