Segunda-feira, 21 de Abril de 2008

Heteronímias ao sol

Hermengarda sentia-se bastante mais confusa ontem à noite, e portanto bastante mais capaz para a escrita do que neste momento. Gostaria de recuperar essa confusão angustiante que lhe tira o sono todas as noites de Domingo, mas não o bastante para lamentar o estado sossegado e confortável de apatia intelectual que é o seu modus vivendi durante as horas mecânicas de trabalho no escritório.
Por isso, ela não pode ser considerada brilhante nem corajosa, porque se fosse, o seu brilhantismo não se manifestava apenas quando é impossível registá-lo, encarcerado na sua cabeça a desoras em que o raciocínio mal se vê por entre a bruma da sonolência e está escuro demais para encontrar uma caneta e um papel antes que a inspiração se desintegre. Se fosse corajosa, ia à procura da caneta e do papel, não obstante as ínfimas probabilidades de os encontrar em tempo útil (estando obviamente excluído o laptop, por causa da eternidade que o Windows demora a arrancar). Hermengarda ronda a genialidade sem nunca lhe tocar, sempre por medo de dar um passo que a desiquilibre para o vazio.

Talvez Pessoa também utilizasse as suas horas de trabalho por conta de outrem para escriturar com retorcido gozo poemas formatados pela transgressão, pensa ela, tendo para si que ele não podia ser tão enfastiante no trato diário quanto o seu aspecto físico ameaçava.  Pelo menos no âmago privado da sua comunidade heterónima, ele era brilhante, corajoso e admirado por todos os membros do clube, embora à luz crua das manhãs públicas parecesse apenas mais um bêbedo lingrinhas e reaccionário. Pessoa, se fosse hoje, faria de certeza muitos blogs.
Hermengarda assume-se bipolar, mas tem uma pena secreta de não ser tripolar, porque sente que assim não pode viver em pleno a sua heteronímia transsexual. Pessoa experimentou-o na pele de Maria José, embora apenas o tempo suficiente para escrever uma carta. Mas experimentou. Enquanto Hermengarda não experimentar, não vai conseguir saber quem de facto é. Se ela quisesse experimentar, faria um blog secreto e não o revelaria a ninguém, nem mesmo a si própria.

Buraco tapado por Citadina às 17:30
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Segunda-feira, 11 de Fevereiro de 2008

Voto a Deus

A expressão é de uma estética inabalável. Remete-nos inexoravelmente para o obscurantismo medieval se pensarmos muito nela, é certo, mas por isso mesmo soa-me a insulto sofisticado. É como dizer: por mim ardias numa fogueira.

É uma teoria que aparenta ser corroborada por especialistas de época, como os inefáveis Íñigo  Balboa y Aguirre e seu amo, o Capitão Alatriste.
 
Buraco tapado por Citadina às 11:10
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Sexta-feira, 16 de Novembro de 2007

Paradoxos da vida profissional no "Portugal real" - uma ilustração neo-surrealista


Caro Pedro Teixeira,

Obrigada pelo seu Curriculum Vitae, que teve a amabilidade de enviar para o endereço de e-mail geral desta empresa e que já foi - estou certa - parar ao recycle bin da maioria dos meus colegas, apesar de ter chegado somente há dez segundos.

Eu, não tendo nada melhor para fazer e movida por uma compaixão idiota própria de quem já se viu na sua triste condição, decidi responder-lhe, só para saber que, contra todas as expectativas e demonstrações científicas, é possível obter alguma espécie de eco desse buraco negro no ciberespaço exclusivamente dedicado à procura de emprego.

Infelizmente este eco não é aquele que tão ansiosamente aguarda. Desculpe mas não está nas minhas mãos. No entanto, não deixa de ser um eco. Fica agora à sua consideração decidir se prefere o silêncio habitual.

Se assim for, pelo menos  - traumatizado pela minha missiva - não deixará de reformular o excerto do seu discurso que versa sobre o seu alegado "conhecimento de que a Vossa empresa está em franca expansão (...)".

Eu própria, a certa altura, reconheci quão patética era a minha atitude de lambe-botas e deixei de tentar cair nas boas graças dos departamentos de recursos humanos das empresas a quem enviava CVs dizendo que elas estavam a ir de vento em popa e eram muito promissoras.

Passei antes a dizer-lhes, no primeiro parágrafo das cartas de apresentação, que me estava a cagar para o que faziam ou em que parte do ciclo económico se encontravam mas achava uma certa graça a esta palermice de tentar parecer muito competente em duas páginas falando de mim própria na terceira pessoa, tendo ao mesmo tempo muito cuidado com a sintaxe e a ortografia.

Estranhamente isto captou inusitado interesse em alguns círculos restritos de funcionários acometidos por um tédio brutal, que tiveram a gentileza de me recomendar nas mais altas instâncias do submundo empresarial. E aqui estou eu. Temos que ser uns para os outros.

Buraco tapado por Citadina às 16:47
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Quinta-feira, 18 de Outubro de 2007

Da série Aqui não abordamos actualidades, só as adaptamos ao cinema

Antropofagia económica - sinopse

Quando a gerência da pequena empresa - PME, como parece que é o termo técnico - sufocou entre as dívidas a fornecedores e os créditos a haver de clientes, ninguém se preocupou em ir avaliar o nível de produtividade dos empregados. Eram todos muito bons. O facto é que não havia fundos para pagar os salários em atraso nem os vindouros. Portanto no mundo real isso da produtividade não era garante de nada, só nos tratados de economia é que queriam fazer acreditar que sim. Em vez disso, foi-lhes rogado que tentassem compreender que se a Justiça não alcança a bolsa dos clientes devedores, o banco não se sente suficientemente garantido para financiar a gestão corrente. E que aquele dedicado patrão não era mais que um peão afastado do tabuleiro por todas as peças mais versáteis e poderosas. Parece que se chama a isso selecção natural na economia. A lei das empresas mais fortes e imunes ao vírus da legalidade.


Ficção desirmanada - uma história colegial

Prometeu que se conteria só para acalmar a outra, que decerto lhe partiria as trombas se aquele queixume não terminasse num ápice.

Tinha medo real, porque já na passada quarta-feira a outra lhe tinha aparecido desabrida, no rescaldo do que descreveu como a única alusão ofensiva às suas vestes que poderia ter originado a utilização abusiva de um martelo pneumático na destruição do sustentáculo de um andaime onde se deleitava o estafermo que proferira tais grosserias, pelo menos até ao momento em que teve de gritar de horror, antecipando o sofrimento que aquela queda de dez metros lhe iria causar à conta dos dentes estilhaçados no asfalto. Que Deus a perdoasse e o preto que se lixasse.

Conteve-se, não fosse hoje a vez dela e a probabilidade considerável de a polícia nunca chegar. Fez os deveres de Matemática e nem disse que não gostava. Depois foi para a sua cela, despiu o hábito coçado, ficando em cuecas e camisola interior. Contemplou as cicatrizes das pernas e ajoelhou-se para rezar sem convicção.

Buraco tapado por Citadina às 11:47
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