Quinta-feira, 19 de Junho de 2008

Being Valupi ou Há bloggers que vale a pena não ignorar

As putas velhas - é do melhorio*, mais pela forma do que pelo conteúdo, que também é bom, mas a forma, senhoras e senhores, a forma!...

O maior português de sempre revisitado - o concurso que pretende eleger um português tão notável que até pode ser uma mulher. Só para gente que tenha a noção do ridículo.

 

* Eu já sei que a palavra formalmente não existe, mas nem se dêem ao trabalho, ok? Finjam que eu sou o Mia Couto.

Buraco tapado por Citadina às 14:25
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Sexta-feira, 6 de Junho de 2008

Os feriados e as férias e as ausências

Não estranheis mas este blog não vai estar assim muito activo na próxima semana, quando se andarem para aí a comemorar os dias de Portugal, de Camões, das Comunidades e de Santo António de Lisboa.

Na verdade o blog vai estar completamente morto, mas depois promete fazer aquele truque do JC e voltar numa manhã soalheira.

Se entretanto não tiverdes mesmo mais nada que fazer do que vir para aqui cirandar, sempre vos podéis entreter a contar as sílabas métricas destas estrofes que vos deixo, ou a a ler, simplesmente, para saberdes, da próxima vez que aludais ao personagem em causa, do que estais a falar:

 

Canto IV – Episódio O Velho do Restelo

90

"Qual vai dizendo: —" Ó filho, a quem eu tinha
Só para refrigério, e doce amparo
Desta cansada já velhice minha,
Que em choro acabará, penoso e amaro,
Por que me deixas, mísera e mesquinha?
Por que de mim te vás, ó filho caro,
A fazer o funéreo enterramento,
Onde sejas de peixes mantimento!" —

91

"Qual em cabelo: —"Ó doce e amado esposo,
Sem quem não quis Amor que viver possa,
Por que is aventurar ao mar iroso
Essa vida que é minha, e não é vossa?
Como por um caminho duvidoso
Vos esquece a afeição tão doce nossa?
Nosso amor, nosso vão contentamento
Quereis que com as velas leve o vento?" —

92

"Nestas e outras palavras que diziam
De amor e de piedosa humanidade,
Os velhos e os meninos os seguiam,
Em quem menos esforço põe a idade.
Os montes de mais perto respondiam,
Quase movidos de alta piedade;
A branca areia as lágrimas banhavam,
Que em multidão com elas se igualavam.

93

"Nós outros sem a vista alevantarmos
Nem a mãe, nem a esposa, neste estado,
Por nos não magoarmos, ou mudarmos
Do propósito firme começado,
Determinei de assim nos embarcarmos
Sem o despedimento costumado,
Que, posto que é de amor usança boa,
A quem se aparta, ou fica, mais magoa.

94

(O Velho do Restelo)
"Mas um velho d'aspeito venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
C'um saber só de experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:

95

—"Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
C'uma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!

96

— "Dura inquietação d'alma e da vida,
Fonte de desamparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios:
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo dina de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana!

97

—"A que novos desastres determinas
De levar estes reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos, e de minas
D'ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? que histórias?
Que triunfos, que palmas, que vitórias?

98

— "Mas ó tu, geração daquele insano,
Cujo pecado e desobediência,
Não somente do reino soberano
Te pôs neste desterro e triste ausência,
Mas inda doutro estado mais que humano
Da quieta e da simples inocência,
Idade d'ouro, tanto te privou,
Que na de ferro e d'armas te deitou:

99

— "Já que nesta gostosa vaidade
Tanto enlevas a leve fantasia,
Já que à bruta crueza e feridade
Puseste nome esforço e valentia,
Já que prezas em tanta quantidades
O desprezo da vida, que devia
De ser sempre estimada, pois que já
Temeu tanto perdê-la quem a dá:

100

— "Não tens junto contigo o Ismaelita,
Com quem sempre terás guerras sobejas?
Não segue ele do Arábio a lei maldita,
Se tu pela de Cristo só pelejas?
Não tem cidades mil, terra infinita,
Se terras e riqueza mais desejas?
Não é ele por armas esforçado,
Se queres por vitórias ser louvado?

101

— "Deixas criar às portas o inimigo,
Por ires buscar outro de tão longe,
Por quem se despovoe o Reino antigo,
Se enfraqueça e se vá deitando a longe?
Buscas o incerto e incógnito perigo
Por que a fama te exalte e te lisonge,
Chamando-te senhor, com larga cópia,
Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia?

102

— "Ó maldito o primeiro que no mundo
Nas ondas velas pôs em seco lenho,
Dino da eterna pena do profundo,
Se é justa a justa lei, que sigo e tenho!
Nunca juízo algum alto e profundo,
Nem cítara sonora, ou vivo engenho,
Te dê por isso fama nem memória,
Mas contigo se acabe o nome e glória.

103

— "Trouxe o filho de Jápeto do Céu
O fogo que ajuntou ao peito humano,
Fogo que o mundo em armas acendeu
Em mortes, em desonras (grande engano).
Quanto melhor nos fora, Prometeu,
E quanto para o mundo menos dano,
Que a tua estátua ilustre não tivera
Fogo de altos desejos, que a movera!

104

— "Não cometera o moço miserando
O carro alto do pai, nem o ar vazio
O grande Arquiteto co'o filho, dando
Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio.
Nenhum cometimento alto e nefando,
Por fogo, ferro, água, calma e frio,
Deixa intentado a humana geração.
Mísera sorte, estranha condição!" —

 

in "Os Lusíadas", Luís Vaz de Camões

 

Pronto. Dividam tudo em métrica clássica e métrica medieval e depois mandem para o meu e-mail.

Ou digam lá se não é afinal sábio o Velho, cuja má fama (desinformada) de retrógrado foi espalhada pela ignorância e pelo pedantismo político.

Buraco tapado por Citadina às 17:19
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Quinta-feira, 8 de Maio de 2008

Ei-los que partem

Por razões profissionais, de sobrevivência e um certo espírito aventureiro, tive de viver por largos períodos da minha vida emigrada. Como referi aqui, recuso-me a viver com uns míseros tostões ou de subsídios de desemprego e sem trabalho ou feita pária à força pelo próprio sistema que vigora em sucessivos (des)governos no meu País. "O trabalho dignifica o Homem" é uma filosofia de vida que mantenho desde sempre e que tentei transmitir aos meus filhos.

Julgo que ninguém que não tenha estado emigrado pode perceber na sua plenitude o que isto significa. Estar longe dos filhos, pais, amigos, da cultura, da comida, do clima, de tudo o que nos atrai e identifica com um determinado sítio. O desenraizamento, a solidão e a saudade são os sentimentos mais dolorosos que nos avassalam então.

Tenho trabalhado sempre em equipas masculinas e em países em que tenho sido, quase sem excepção, a única mulher estrangeira a trabalhar. Estivemos em sítios que não lembra ao diabo. Convivemos com povos e culturas que são desconhecidos para a maior parte das pessoas. Comemos coisas estranhíssimas e outras maravilhosas. Viajámos em executiva e em aviões a cair de podre e sem manutenção. Vivemos em hotéis de cinco estrelas e em autênticas espeluncas. Apanhámos dos 50 graus à sombra até aos 40 graus negativos e às tempestades de neve que nos conservavam vestidos e sem dormir por 3 dias em aeroportos apocalípticos. Conhecemos técnicos extraordinários e pessoas impolutas e dignas e conhecemos mafiosos e crápulas de toda a espécie.

Chorei muitas vezes em privado, tal era a solidão e o sofrimento que a distância dos meus me causava. Do mesmo modo, nunca vi os meus colegas queixarem-se em público, nem chorar nem deprimir. Eles tinham uma forma própria de combater a solidão: arranjavam namoradas, putas ou outras formas de substituição temporária de afecto.

Ouvi muitas confidências deles. Estavam ali, tal como eu, na frente de batalha, para sustentar as famílias e por falta de oportunidades em Portugal, quer devido à sua profissão, quer devido ao facto de Portugal mal lhes pagar para sobreviverem. Amavam as mulheres, mas desorientavam-se por vezes com outros afectos. Um provável complexo de culpa fazia com que recorressem a mim para tentar expurgá-la à laia de confissões livres de condenação. Sabiam que eu guardaria segredo, que os aconselharia, que não os julgaria à luz de dogmas moralistas. Era como se fossemos uma família em que cada um se preocupava genuinamente com todos e cada um dos outros.


Quando se deu a dissolução da URSS, ouvi muita gente de lá revoltada com a perda da maior riqueza que um País pode ter: a fuga dos seus melhores quadros. Cientistas, quadros técnicos, músicos, ginastas, artistas, escritores.

Em Portugal é ao contrário. Que nos vamos embora é o que nos desejam e incentivam a fazer. Hoje em dia são cerca de 5 milhões os portugueses emigrados, sem que haja fascismo que o justifique. Faz-me sempre lembrar aquela canção de Manuel Freire:

“Ei-los que partem
novos e velhos
buscando a sorte
noutras paragens
noutras aragens
entre outros povos
ei-los que partem
velhos e novos

Ei-los que partem
de olhos molhados
coração triste
e a saca às costas
esperança em riste
sonhos dourados
ei-los que partem
de olhos molhados

Virão um dia
ricos ou não
contando histórias
de lá de longe
onde o suor
se fez em pão
virão um dia
ou não”

Buraco tapado por Cosmopolita às 11:35
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Quarta-feira, 30 de Abril de 2008

Mas quem raio é que quer viver para sempre?

"A insónia é uma amostra grátis de eternidade."

"O insone é um vivo compulsivo."

(Brilhantismos insones do Bandeira, pois quem mais?)

Buraco tapado por Citadina às 15:56
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Segunda-feira, 3 de Março de 2008

Da branca à genialidade em um passo simples

"É preciso fazer as pazes com a ideia de ser só mediano, só banal, só indiferente, nada de especial e mesmo assim prosseguir no paradoxo do propósito maior."

(Fernanda Câncio, no 5 Dias)


Isto é sobre escrever e sobre o trabalho dos jornalistas. Mas na verdade é sobre tudo.

Buraco tapado por Citadina às 17:45
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Falta de jeito para o liberalismo selvagem

Se pudesse escolher entre um emprego desafiante profissionalmente e outro que não o fosse, mas que em contrapartida me proporcionasse um manancial de disponibilidade para o lazer, a cultura e outras formas de alimentação do intelecto, não seria uma escolha fácil nem linear. Mas em ambas as hipóteses a motivação no meu dia-a-dia estaria assegurada.

Certo é que definharia a olhos vistos num emprego que não proporcionasse nem desafio nem disponibilidade, só por causa de dinheiro, só para acumular riqueza material.

O dinheiro é apenas um meio para adquirir qualidade de vida. Mas para a ter, é preciso dispor de tempo para dedicar a vivências qualitativas. No entanto, as vidas profissionais de hoje assemelham-se cada vez mais a novas fórmulas de escravidão que passam por viver exclusivamente para a "carreira" a maior parte da vida, sem tempo de qualidade para mais nada, apostando na esperança de gozar os hipotéticos frutos do esforço mais tarde.

Essa esperança num futuro ou fim dourado que pode nem chegar a existir, ou existindo, revelar-se falacioso, nas formas de exclusão social, ambiente destruído, guerras ou outras catástrofes que, por mais que lutemos não consigamos evitar, é um salto de fé que não consigo dar. Para mim só faz sentido lutar e contribuir agora por uma vida de qualidade hoje. Até porque, como dizia Keynes, a longo prazo estaremos todos mortos.

Buraco tapado por Citadina às 11:42
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Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2008

Os homens da minha geração

Os homens da minha geração enviam e-mails com textos destes às mulheres de quem são amigos.

"AS MULHERES DA MINHA GERAÇÃO

É o único tema em que sou radical e intolerante. Aquele em que não escuto razões: as mulheres da minha geração são as melhores. E ponto final!

Hoje têm quarenta e muitos anos ou cinquenta e tal, e são belas, muito belas, porém também serenas, compreensivas, sensatas e sobretudo diabolicamente sedutoras, isto, apesar dos seus incipientes pés-de-galinha ou desta afectuosa celulite que campeia as suas coxas, mas que as fazem tão humanas, tão reais. Formosamente reais.

Quase todas, hoje, estão casadas ou divorciadas, ou divorciadas e casadas, com a intenção de não se equivocar no segundo intento, que às vezes é um modo de acercar-se do terceiro e do quarto intento. Que importa? Outras, ainda que poucas, mantêm um pertinaz celibatarismo, protegendo-o como uma fortaleza sitiada que, de qualquer modo, de vez em quando abre as suas portas a algum visitante. Que belas são, por Deus, as mulheres da minha geração!

Nascidas sob a era de Aquário, com influência da música dos Beatles, de Bob Dylan, de Lou Reed, do melhor cinema de Kubrick e do início do boom latino-americano, são seres excepcionais. Herdeiras da "revolução sexual" da década de 60 e das correntes feministas que, no entanto, receberam passadas por vários filtros, elas souberam combinar liberdade com coqueteria, emancipação com paixão, reivindicação com sedução. Jamais viram no homem um inimigo, apesar de lhe cantarem algumas verdades, pois compreenderam que a sua emancipação era algo mais do que pôr o homem a lavar a louça ou a trocar o rolo do papel higiénico. Decidiram pactuar para viver em casal com o seu parceiro, essa forma de convivência que tanto se critica, mas que, com o tempo, resulta ser a única possível, a melhor pelo menos neste mundo e nesta vida.

São maravilhosas e têm estilo, mesmo quando nos fazem sofrer, quando nos enganam ou nos deixam. Usaram saias indianas aos 18 anos, enfeitaram-se com colares andinos, cobriram-se com suéteres de lã e perderam a sua parecença com Maria, a Virgem, numa noite louca de sexta-feira ou de sábado, depois de dançar El Raton de Chéo Feliciano, na Terra Corrida ou em Quiebracanto com algum amigo que lhes falou de Kafka, de Gurdieff e do cinema de Bergman.

No fundo das suas mochilas traziam pacotes de rouge, livros de Simone de Beauvoir e cassetes de Victor Jara, e, ao deixar-nos, quando não havia mais remédio senão deixar-nos, dedicavam-nos aquela canção de Héctor Lavoe, que é ao mesmo tempo um clássico do jornalismo e do despeito, que se chama "Teu amor é um jornal de ontem". Vestiram-se de luto pela morte de Julio Cortázar, falaram com paixão de política e quiseram mudar o mundo, beberam rum cubano e aprenderam de cor as canções de Sílvio Rodriguez e de Pablo Milanez, conhecerem os sítios arqueológicos de San Agustin e Tierradentro (nessa época podia ir-se sem temor para a guerrilha, que nostalgia!), foram com seus namorados às praias do parque Tayrona, dormindo em barracas e deixando-se picar pelos mosquitos, porque adoravam a liberdade, algo que hoje inculcam aos seus filhos, o que nos faz prever tempos melhores e, sobretudo, juraram amar-nos por toda a vida, algo que sem dúvida fizeram e que hoje continuam a fazer na sua formosa e sedutora maturidade.

Souberam ser, apesar de sua beleza, rainhas bem educadas, pouco caprichosas ou egoístas. Deusas com sangue humano. O tipo de mulher que, quando lhe abrem a porta do carro para que suba, se inclina sobre o assento e, por sua vez, abre a do seu companheiro por dentro. A que recebe um amigo que sofre às quatro da manhã, ainda que seja seu ex-noivo, porque são maravilhosas e têm estilo, ainda que nos façam sofrer, quando nos enganam, ou nos deixam, pois o seu sangue não é suficientemente gelado para não nos escutar nessa salvadora e última noite, na qual estão dispostas a servir-nos o oitavo uísque e a colocar, pela sexta vez, aquela melodia de Santana.

Por isso, para os que nascemos nas décadas de 60, o dia da mulher é, na verdade, todos os dias do ano, cada um dos dias com suas noites e seus amanheceres, que são mais belos, como diz o bolero, quando estás tu. Que belas são, por Deus, as mulheres da minha geração!

(escrito por Santiago Gambôa, escritor Colombiano)"

Buraco tapado por Cosmopolita às 18:26
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Terça-feira, 22 de Janeiro de 2008

R(a)lações amorosas

Estive a ler no outro dia um post muito interessante: “Revoluções amorosas” no Uva na Vulva. Resume muitos livros que li, muitos conselhos que me deram, muitos caminhos que percorri nos meus afectos.

...O que se busca hoje é uma relação compatível com os tempos modernos, na qual exista individualidade, respeito, alegria e prazer de estar junto, e não mais uma relação de dependência, em que um responsabiliza o outro pelo seu bem-estar.

A idéia de uma pessoa ser o remédio para nossas felicidades, que nasceu com o romantismo, está fadada a desaparecer neste início de século. O amor romântico parte da premissa de que somos uma fração e precisamos encontrar nossa outra metade para nos sentirmos completos. Muitas vezes ocorre até um processo de despersonalização (…).

...A palavra de ordem deste século é parceria. Estamos trocando o amor de necessidade pelo amor de desejo. Eu gosto e desejo a companhia, mas não preciso - o que é muito diferente.

O outro (...) É apenas um(a) companheiro(a) de viagem.


A nova forma de amor, ou mais amor, tem nova feição e significado. Visa a aproximação de dois inteiros, e não a união de duas metades. E ela só é possível para aqueles que conseguirem trabalhar sua individualidade. Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho, mais preparado estará para uma boa relação afetiva.

O amor de duas pessoas inteiras é bem mais saudável. Nesse tipo de ligação, há o aconchego, o prazer da companhia e o respeito pelo ser amado.

A Duca citou-o e escreveu um post também muito interessante a propósito do “Amor e apego”, que já comentei.

Penso que inerente às relações de afecto deve estar o conteúdo dum poema do meu dilecto Reinaldo Ferreira “Mínimo sou, mas quando ao nada empresto a minha elementar realidade, o nada é só o resto”.

Se não formos capazes de nos amarmos e respeitarmos tanto ou mais do que aos outros, não conseguiremos jamais que os outros nos amem e respeitem também. A auto-estima, o amor-próprio, a busca da felicidade, a recusa da mediocridade por acomodação, a independência, a não anulação da personalidade e vontade própria em função de outrém, a criação de espaços de cedência consensuais que não violem nenhuma das partes, a capacidade de reconhecer erros, de pedir desculpa, o não se abdicar da cerimónia um com o outro, a capacidade de priorizar e relativizar as coisas, a de se reinventar ao amor e a sensualidade, o saber o que se quer (ou pelo menos o que se não quer de todo), entre muitos outros factores, são absolutamente essenciais para que se possa amar e não estar apenas apegado, para que as relações entre pessoas sejam saudáveis e não afectos doentios, portadores de traumas e infelicidade. Não convém assim esquecermo-nos que nas relações vítima-carrasco são ambos cúmplices disso, não há inocentes nem culpados.

A (des)propósito apeteceu-me deixar aqui a letra da canção “Bem querer” que a Maria Bethânia canta tão bem:

Quando o meu bem-querer me vir
Estou certa que há de vir atrás
Há de me seguir por todos
Todos, todos, todos os umbrais

E quando o seu bem-querer mentir
Que não vai haver adeus jamais
Há de responder com juras
Juras, juras, juras imorais

E quando o meu bem-querer sentir
Que o amor é coisa tão fugaz
Há de me abraçar com a garra
A garra, a garra, a garra dos mortais

E quando o seu bem-querer pedir
Pra você ficar um pouco mais
Há que me afagar com a calma
A calma, a calma, a calma dos casais

E quando o meu bem-querer ouvir
O meu coração bater demais
Há de me rasgar com a fúria
A fúria, a fúria, a fúria dos animais

E quando o seu bem-querer dormir
Tome conta que ele sonhe em paz
Como alguém que lhe apagasse a luz
Vedasse a porta e abrisse o gás.

Buraco tapado por Cosmopolita às 15:27
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Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2008

O melhor pescado de sempre (com rede de malha larga) #5

Até o Pedro Mexia (ou principalmente?) foi acometido, no Verão passado, pela necessidade de elaborar sobre o tal assunto tabu / maldito / apaixonante (risque o que não interessa).
E no meio das suas reflexões, apresenta um dos mais válidos argumentos, no meu entender, para se ser fiel:

"Da infidelidade (3)
OK, a novidade sexual é excitante; mas se o adúltero faz do adultério um hábito, o próprio adultério se torna uma simples rotina. Rotina por rotina, o casamento dá menos chatices."


Publicado no Estado Civil, no dia 23 de Agosto de 2007, à 1:08 AM.

Buraco tapado por Citadina às 17:26
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Terça-feira, 8 de Janeiro de 2008

O melhor pescado de sempre (com rede de malha larga) #4

A infidelidade é um tema recorrente na blogosfera, e o Azinhaga não é excepção. É mesmo apaixonante, passo a ironia, a avaliar pela quantidade de referências, como esta, esta, esta e milhares - estou certa - de outras.
No entanto, não posso deixar de destacar uma delas, pela sua assertividade esclarecida, pela elegância que lhe dá o género ficcional e pelas alegorias magistralmente conseguidas.
Transcrevo apenas aquele que considero o melhor trecho, mas insiro-lhe uma hiperligação para o post original completo.

"(...) Mas como se quebra um homem íntegro? Com a lucidez própria de quem passara a vida numa companhia de seguros, Mónica sabia que bastava aumentar as oportunidades para a transgressão. Este entendimento estatístico da condição humana, que escapa a todos os fundamentalistas, faz dos homens criaturas mais parecidas e vítimas da circunstância do que muitos gostariam de pensar (...)"

Publicado no A Memória Inventada, a 13 de Dezembro de 2007.

Buraco tapado por Citadina às 11:57
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Segunda-feira, 7 de Janeiro de 2008

O melhor pescado de sempre (com rede de malha larga) #3

Um post a não esquecer, publicado em 20 de Outubro de 2006 no Random Precision e no Diário Ateísta, por desmascarar sumária, irónica e brilhantemente a hipocrisia e má fé da ICAR (Igreja Católica Apostólica Romana), a propósito de vários casos de pedofilia praticada por padres da referida instituição que vieram a público:

"Um Problema Conjuntural

«Não só os homossexuais mas também aqueles que os toleram são merecedores da morte»
- Bíblia: Romanos 1:32

«O acto homossexual deve ser punido com a morte».
- Bíblia: Levítico 20:13


Moral da história:

A homossexualidade é uma doença incurável que não pode ser tolerada por nenhum bom cristão e deve ser punida com a morte;

A pedofilia é um problema conjuntural que se resolve mudando o padre de freguesia."


(sem a ilustração do post original, a qual pode visualizar clicando na citação acima).

Buraco tapado por Citadina às 11:51
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Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008

O melhor pescado de sempre (com rede de malha larga) #2

Este é um texto de tal modo intenso e pungente que nunca o consegui tirar da cabeça, e quando esta se me põe com merdas, vou relê-lo para aliviar a confusão e gerar forças.
Tomo a liberdade de o dedicar à minha amiga D. e a Ticcia que me desculpe tal abuso.

"Bem assim.

Oi queridinha, senta aqui no colinho da titia que eu vou te contar um segredinho. Presta atenção. Não interessa que tu não tenhas feito nada de errado, que tu tenhas te mantido atenta, olhado para os dois lados antes de atravessar a rua, feito a lição de casa, tratado da cabeça, decidido certo, escolhido bem. Não interessa que tu consigas ler nas entrelinhas, que a tua intuição seja boa, que tu enxergues os outros. Não interessa que tu tenhas dado tudo de ti, te esforçado o máximo, feito o melhor, apostado todas as fichas, mergulhado de cabeça, te comprometido, sido sincera, transparente, solidária, amado de verdade. Não interessam todas as certezas, os sinais, as intuições, todas as provas irrefutáveis, todos os indícios, todas as declarações, todas as intenções, todos os planos, todas as conversas, todas as afinidades, todos os detalhes, todo o milagre, a mágica, o inexplicável. Não interessa porra nenhuma disso. Conta, é, mas não decide patavina de coisa nenhuma. E depois, mesmo depois de tudo e do fim, depois do depois, depois, não assegura nada. Não garante o céu, o primeiro prêmio, o tylenol, o alívio, a certeza, o futuro. Não garante recomposição, cura, outra chance, justiça, redenção, recompensa, não garante que vá passar, que vá acontecer de novo (ou que não vá), não garante absolutamente nada. O que existe, ao fim e ao cabo, é o que já foi e o que é agora, bom e ruim, triste e alegre. O que sobra e o que é certo é tu. Tu e o que de ti conseguiste salvar. E só. Só isso. Só.
"

Publicado no Mme. Mean, na coluna "Madame Benvenisti", às 17:38 de 25-09-2006.

Buraco tapado por Citadina às 12:06
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Quinta-feira, 3 de Janeiro de 2008

O melhor pescado de sempre (com rede de malha larga)

Lamentamos, mas aqui não há balanços. Como creio que já ficou claro, este é um blog sem linha editorial nem agenda política, sem as pressões das grandes audiências nem aspirações jornalísticas, sem "contactos" nem "conhecimentos", sem cunhas nem favores. Na verdade, este blog é um mero bloco de notas rabiscado por duas pessoas que se entendem ao ponto de conseguir partilhar harmoniosamente um objecto tão pessoal.

Em vez de balanços formais / triviais / clássicos, ocorreu-me (re)publicar aqui textos, excertos, frases, ou outras formas de expressão que fui pescando na blogosfera ao longo de já vários anos de frequência assídua. Ou seja, a haver balanço, é um balanço blogosférico, um balanço de eleição pessoal e intransmissível, subjectivo tanto quanto obriga a ignorância decorrente de não conseguir ler tudo o que, por ventura, há para ler.

E começa com uma "Mínima"® do Bandeira, que pesquei num dos meus recorrentes momentos de desprezo pelos auto-proclamados guardiões da moral e dos bons costumes, decerto por vir a propósito:

"Ética é sobre o que devemos fazer. Moral é sobre o que não devemos fazer."

Parece simples e evidente, mas é brilhante e sofisticada, esta.
Mais virão.

Buraco tapado por Citadina às 16:53
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Quinta-feira, 27 de Dezembro de 2007

Da ingenuidade

"Não me orgulho dela, porque a ingenuidade paga-se cara, nem a enjeito porém."

Luiz Pacheco, em "Os Doutores, a Salvação e o Menino Jesus" (Conto de Natal), prólogo.

Oficina do Livro, 2002

 

Buraco tapado por Citadina às 13:43
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Sexta-feira, 3 de Agosto de 2007

Conceitos e Factos

“A análise excessiva dos factos acaba por destruir o conceito…Ou é o contrário? Os conceitos destroem os factos?”
Pérez-Reverte , em “O Pintor de Batalhas”.

A factualização exaustiva dos conceitos lixa as análises... Ou será que muita da conceptualização dos factos leva a análises lixadas, como diria um amigo meu?

A meu ver, é mais a segunda opção.
Buraco tapado por Cosmopolita às 14:41
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Quinta-feira, 12 de Julho de 2007

Citações

"Lá estava a cama deles e, na parede, o quadro oval de onde Santa Brígida os olhava, sofredora e extática, coroada por um aro flamejante que, na imaginação infantil de Lucas, representava uma dor de cabeça."

em "Dias Exemplares" de Michael Cunningham, Gradiva, 2005

Buraco tapado por Citadina às 10:46
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Terça-feira, 16 de Janeiro de 2007

Coisa mais brilhante que li hoje

... se bem que aqui reproduzo apenas um excerto, arrancado do contexto original. Pelo facto desculpa, Rui, mas foi este preciso fragmento que me encantou. O resto do texto também é muito bom, e tem a minha subscrição sem reservas, mas isto... é brilhante.

"Em tempos gostei de citar Umberto Eco e dizer: “sou um optimista trágico”, ou seja, alguém que é um optimista a longo prazo mas um pessimista no imediato. Vocês sabem: alguém que acha que vai haver guerras e sofrimento, mortandades terríveis, mas que a humanidade vai sair delas mais sábia. No fim do caminho, a capacidade dos humanos para a linguagem, para conversarem e se entenderem, levará finalmente a melhor.

Hoje vejo como estava errado. O optimismo a longo prazo não faz sentido. É a curto prazo que há razões para optimismo, ou melhor, uma grande razão que contém todas as outras. A curto prazo, estaremos vivos. A curto prazo só faz sentido ser optimista: acredito que estarei vivo durante os próximos dias. A longo prazo, há uma grande razão para pessimismo e uma enorme probabilidade de não estarmos vivos."

Buraco tapado por Citadina às 17:51
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Quinta-feira, 4 de Janeiro de 2007

Série "Mulher a dias" - 1

"Ela falava, falava, falava. Falava pelos cotovelos. Eu sou a dona da casa. E essa empregada gorda só sabia falar, falar, falar. Onde quer que eu estivesse, lá estava ela, chegava e começava a falar. De tudo e de nada, disto e daquilo, para ela tanto fazia. Despedi-la por causa disso? Teria que lhe dar três meses de indeminização. Ainda por cima, seria bem capaz de me rogar uma praga. Até na casa de banho: e para aqui e para acolá, e frito e cozido. Espetei-lhe o garfo na boca para que se calasse. Não morreu por causa disso, mas por já não poder falar: as palavras explodiram no interior."
 

Em "Crimes Exemplares", de Max Aub, editado pela Antígona.

Buraco tapado por Citadina às 12:05
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